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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Hoje há precários! Amanhã? Não sabemos...

É sempre bom ver trabalhadores a reivindicarem os seus direitos. Significa que estão activos, sabem o que lhes é negado e surgem com um espírito de solidariedade e entreajuda que permite melhorar as condições de todos, os que têm direitos na empresa e os que não têm direitos. Espero que os trabalhadores precários do grupo RTP (RTP televisão, Antena 1, Antena 2 e Antena 3 & etc.) – "meia centena de jornalistas, tradutores, locutores, repórteres de imagem, entre outros trabalhadores" – tenha o apoio e solidariedade dos seus camaradas que não são "precários" e que o patrão ouça e atenda aos direitos reclamados. 
Protesto dos trabalhadores da RTP a "recibo verde", hoje em Lisboa, à hora do telejornal da 13h00. Foto Lusa/Sapo
Na Lusa a situação é a mesma. Deviam ter-se juntado a estes, porque se os trabalhadores "precários" da Lusa fizerem um protesto ou uma greve, ninguém os ouve e ninguém os vê. O patrão (embora mais alargado) é o mesmo...

Ah! A propósito, hoje os chavões  ficaram de fora: o protesto (não uma greve) foi protagonizado por trabalhadores (que é o que eles são) e não colaboradores, que é o que os jornalistas agora chamam aos trabalhadores... E também ninguém disse que o protesto foi para a fotografia, porque a seguir foram todos trabalhar (ou colaborar, não é?)...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

“Aquele querido mês de Agosto” deixa saudades! E Miguel Gomes é um ovni...

“Aquele querido mês de Agosto” (2008) é um ovni do cinema português, que aterrou nas salas de cinema do mundo inteiro, causando espanto e admiração. Documentário ou falso documentário? Filme de adolescentes? Ficção, mera ficção? Musical? Drama familiar e social? Um filme dentro do filme? 

 

Fábio Oliveira/Hélder e Sónia Bandeira/Tânia, actores amadores ao nível dos melhores profissionais, são o par amoroso ficcionado e "documentado", que domina "Aquele querido mês de Agosto"

“Aquele querido mês de Agosto” é tudo isso e não é nada disso! A história é simples: uma rapariga canta na banda do pai nas festas de verão nas aldeias da região centro do país (nos concelhos de Oliveira do Hospital, Góis, Arganil, distrito de Coimbra). O seu primo de 17 anos chega à aldeia com os pais, antes de seguir para Estrasburgo, onde se vai instalar. Com dotes musicais, começa a tocar guitarra na banda e os dois jovens iniciam uma relação. A rapariga perde a virgindade com o primo e este segue com os pais para França.

 

Este é o drama familiar e social, com alguns pormenores decisivos, como o facto de o pai (que é também o produtor no filme-dentro-do-filme) e a filha acreditarem que a mãe desaparecida foi raptada por extraterrestres, embora na aldeia muitos acreditem – incluindo o pai do rapaz (irmão da mulher desaparecida) – que o casal mantém uma relação incestuosa. 


Sónia Bandeira numa das cenas finais: despedida e recordação do amor consumado

 

Mas estamos instalados no domínio do documentário desde o início do filme: as festas populares nestas aldeias são mostradas como um documento etnográfico, antropológico, sociológico. Desde o Paulo “Moleiro”, o “menino do rio”, que se atira ao rio Alva para ganhar uns trocos e que foi atropelado por marroquinos e que se embebeda militantemente aos fins de semana. O emigrante carregador de andores de procissão com uma hérnia discal que se diz iluminado por um milagre quando o seu andor da Rainha Santa se cruzou com o andor da N.ª S.ª da Saúde. Os cantores e músicos das bandas de música popular (“pimba”) e os pares de dançarinos nas festas nocturnas. Os cafés onde se bebem minis, em meio a conversas fúteis e localizadas, procurando iludir a posição da câmara dos cineastas. A rapariga (que é a protagonista da ficção) que no verão também é vigia florestal, em permanente contacto com os bombeiros via rádio. A banda filarmónica, os bombos e os gigantones, os tocadores de concertina (e acordeão) e os cantadores ao desafio. Os bombeiros em vigia e em curso na proteção da floresta. A paisagem luxuriante do interior centro do país, apesar do predomínio dos eucaliptos. Os atores e figurantes amadores.

 

A "cena do casting", propositadamente absurda, com Miguel Gomes ao centro (de vermelho) e Vasco Pimentel (2.º à esq.) a segurar o "coelho". E restante equipa de realização, produção e actores.

E depois o filme dentro do filme. Uma pequena equipa de filmagem, com o próprio realizador, a confirmar que não tem dinheiro para prosseguir o filme, preocupado apenas com as brincadeiras pessoais, com experimentação sonora, em discussões com o produtor e com a equipa, quase desculpando-se perante o espectador por não ter actores, não ter história e ir filmando o que vê no interior do país, em pleno Agosto.

 

Mas não nos iludamos: Miguel Gomes é um prestidigitador diplomado! Há um facto que é descrito nas notas de produção divulgada à imprensa: esgotou-se a película de 35mm em filmagens nas aldeias, mas ainda nem havia filme. Então a equipa foi para o terreno (o filme foi rodado em 2006 e 2007) filmar em 16mm, incorporando a ficção, no documentário (ou vice-versa), surgindo como pano de fundo a contextualizar o falso-documentário, a ficção e o filme dentro do filme.

Cartaz oficial 2008

 

O resultado é notável! “Aquele querido mês de Agosto” é uma obra maior do cinema português, um filme que pisca o olho ao espectador, que mostra o interior de um país pobre e atrasado (como sempre foi desde a Idade Média), a crendice e a superstição, a "condição" de emigrante, a dicotomia cidade-campo, envoltos numa básica história de amor adolescente, protagonizada por actores amadores, sem que isso seja um inconveniente.

 

E aquela banda sonora… Ninguém imaginaria um filme de qualidade com uma banda sonora onde pontuam Tony Carreira, Banda Diapasão e Marante, Banda Gomape (Emanuel & companhia), José Cid, Dino Meira, José Malhoa, Broa de Mel, Trio Odemira, Conjunto Oliveira Muge… E depois novamente aquele piscar de olhos (Ouvidos? Sentidos?), com as Variações de Goldberg, de Bach, que, de repente, é um dos momentos mais pirosos do filme, porque já não se imagina a paisagem sem aquela vulgar música “pimba”, música popular maliciosa e com a lágrima ao canto olho.

 

Imperdível, para ver, rever e chorar por mais. Miguel Gomes é um dos mais imaginativos realizadores de cinema em actividade. E é português!

 

Menção para o trabalho de som, muito bom, muito bom, que nos brinda com excelentes misturas (em campo/fora de campo) no início, que depois são motivo para os diálogos finais entre o realizador e director de som, que são mais uma piscadela de olho ao espectador.

 

De referir ainda os inúmeros prémios e críticas que o filme conquistou e que podem ser vistos no sítio da produtora O Som e a Fúria, aqui, e também uma dissertação de mestrado em estudos artísticos apresentada na Universidade de Coimbra por Daniel Filipe da Costa Boto, que pode ser lida aqui.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A pluralidade na televisão portuguesa e a desonestidade de Pacheco Pereira


Assisti ontem à noite a um programa de discussão política na televisão paga, uma edição especial comemorativa a assinalar mais de duas décadas de existência. O programa é o “Quadratura do Círculo” e passa no canal pago SIC Notícias.


Foi e é anunciado como o mais antigo programa televisivo de debate político, iniciado na década de 1980. Começou como “Flashback”, ainda na rádio, depois passou para o canal SIC, transmitido em sinal aberto, e depois para o cabo, já com o nome “Quadratura do Circulo” (um problema matemático insolúvel), acessível apenas por subscrição paga.

Há uma característica comum a todos estes anos de longevidade: um dos comentadores mantém-se desde a fundação do programa, o professor e historiador José Pacheco Pereira, militante, ex-dirigente e ex-deputado do PSD.


Assisti ao início do programa com curiosidade, já que não sou espectador frequente. Eram convidados, além dos habituais participantes – Carlos Andrade (moderador), Pacheco Pereira, António Lobo Xavier (CDS/PP) e António Costa (PS) – antigos colaboradores. A saber, Nogueira de Brito (CDS/PP), José Magalhães (PS) e Jorge Coelho (PS). Não compareceram os antigos comentadores Miguel Sousa Tavares (jurista, comentador profissional e cronista) e Vasco Pulido Valente (historiador e cronista, ex-deputado do PSD).

Enfastiado com o tom auto-elogioso e saudosista da primeira meia hora de programa, fiquei incomodado quando Pacheco Pereira afirmou que o “Quadratura do Círculo” não visava a representação partidária. Pelo contrário, era um espaço livre de debate sobre política, que não projectava os partidos políticos com assento no Parlamento (cito de memória, não tomei notas).

Inteiramente falso, uma desonestidade de Pacheco Pereira. O ex-dirigente do PSD, que surge semanalmente como uma espécie de “educador para os média” (tem um outro programa na televisão paga, “Ponto Contraponto”), crítico do jornalismo que se produz em Portugal.

O historiador sabe perfeitamente que, na televisão, aquilo que parece é; sabe bem que a representação das personagens do programa “Quadratura do Círculo”, indica precisamente os partidos que têm governado Portugal desde o 25 de Abril de 1974, PSD, PS e CDS/PP, por muito que se diga que essas personagens não falam em nome dos partidos. Os próprios participantes do programa admitiram com a maior das canduras (não será antes desplante?) que muitas vezes não podem defender livremente as suas opiniões políticas, porque vão contra as correntes dos seus partidos, os partidos de que são filiados ou dirigentes.

Ou seja, a projecção actual do programa (como também o fora no passado) coincide intencionalmente (poderia ser de outra forma?) com os partidos do chamado “arco da governabilidade” (chavão desenvolvido por quem exerce o poder político), excluindo representantes do PCP e do BE.

Da mesma forma, no plano simbólico, o programa decorreu no Quartel do Carmo, em Lisboa, o local que marca a queda do governo fascista, no poder até 24 de Abril de 1974. A “Quadratura do Círculo” apropriou-se da imagem do Povo e da sua pluralidade, no apoio que deu ao golpe militar, excluindo mais uma vez as margens, apoderando-se da imagem da democracia conquistada, repartindo-a pelos três partidos representados no ecrã televisivo.


Duas conclusões.

A primeira quanto ao “Quadratura do Círculo”: de todas as opiniões dos afiliados do PSD, PS e CDS/PP, não há lugar, são banidas, as opiniões de representantes do PCP e do BE. Note-se que ambos os partidos têm representação no Parlamento português; o PCP é o partido mais antigo em Portugal (é um dos mais antigos no mundo dos países democráticos), mas é constantemente ostracizado, por razões históricas, pelo processo de construção do imaginário colectivo, mas sobretudo por ser um partido marxista-leninista, o último com representação parlamentar na União Europeia. Ou seja, um leque importante da opinião político-partidária com expressividade assinalável na sociedade portuguesa não tem lugar num programa que se auto-intitula de debate político livre.

A segunda conclusão: a projecção política-ideológica evidenciada no “Quadratura do Círculo” reflecte – na generalidade, uma larga generalidade – o panorama de debate nas televisões portuguesas, com referência para o serviço público de rádio e televisão, que exclui do espaço mediático PCP e BE. Numa outra análise, que não cabe agora aqui, os canais privados e públicos e os respectivos “impérios” mediáticos, excluem sistematicamente as representações políticas das franjas, contribuindo para um estreitamento do debate e da formação de opinião pública, o que, em última análise, é uma forma de manter o poder centrado num conjunto restrito que segue determinadas linhas político-ideológicas; tanto mais que a cúpula desses grupos económicos estão intimamente ligados aos partidos PSD, PS e CDS/PP.




Foto dos presidentes dos grupos proprietários de média. (Da esq. para a dir.) Francisco Pinto Balsemão, um dos fundadores do PSD, ex-primeiro-ministro de uma coligação PSD/CDS, presidente do canal privado SIC onde passa o "Quadratura do Círculo"; Joaquim Pina Moura, ex-deputado do PS, oriundo do PCP, ex-ministro das Finanças de um governo PS, administrador do grupo espanhol Prisa, proprietário do Grupo Media Capital, presidido pelo ex-accionista Miguel Pais do Amaral, com ligações ao CDS/PP, grupo que é propretário do canal privado TVI; Alberto da Ponte, ex-administrador do sector cervejeiro nacional e europeu, presidente da RTP, serviço público de Rádio e Televisão, nomeado pelo actual governo PSD/PP, com a missão de despedir jornalistas e funcionários, diminuindo o mais possível a prestação de serviço público, recorrendo a uma programação populista sem critério.

O programa “Quadratura do Círculo” de ontem foi gravado na véspera, um dia depois da mensagem do Presidente da República, que teve o efeito de aprofundar a crise política portuguesa. Não por acaso, a proposta do chefe de Estado para a crise política excluiu das soluções PCP e BE, partidos com legitimidade democrática e com propostas concretas, que, tal como nos programas televisivos, são afastados do debate mediático, prolongando e acentuando o afunilamento de soluções.

Depois do discurso inicial auto-elogioso e saudosista, os “comentadores” propunham-se discutir a tal proposta do Presidente da República. Mas foram apanhados pela rapidez dos acontecimentos, já que a realização do programa passava em rodapé a informação sobre a reunião do PS que decorria naquela noite: os socialistas aceitavam o diálogo partidário proposto pela Presidência, mas diziam que deviam estar envolvidas “todas as forças políticas com representação parlamentar” (Agência Lusa, através do Expresso On-line), excluindo integrar um governo no actual quadro parlamentar.

Eu desliguei a televisão. Já não tinha mais nada para ver.

Créditos das imagens, por ordem de entrada: banner do programa SIC Notícias, retirado do local próprio; foto de JPP retirada de www.leituras.eu, não assinada; foto da manifestação popular no Largo do Carmo, em 25 de Abril de 1974, não assinada, retirada de www.parlamento.pt; foto de FPB retirada da SIC Notícias, aparentemente assinada pela Agência Lusa; foto de JPM, não assinada, retirada de samuel-cantigueiro.blogspot.com; foto de AP, não assinada, retirada de hipersuper.pt; mira técnica de televisão retirada de ateoriadobigblog.blogspot.com.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Pequeno apontamento sobre a evolução das mentalidades em Portugal

Eu ainda sou do tempo em que o actor João Grosso foi despedido da RTP e depois processado (e ilibado) por ter cantado em directo, no programa juvenil dominical "Fisga" (onde apresentava bandas rock ao vivo), o hino nacional "A Portuguesa" em versão rock. É isso mesmo: o actor cantou o hino nacional acompanhado por uma banda rock ao vivo na RTP, em 1986, e foi despedido e processado. Grosso chegou mais tarde a ser atacado na rua, em Lisboa, com gravidade, por um bando de neonazis.

Vinte anos depois, em 2006, a Portugal Telecom fez um anúncio, com a finalidade de vender produtos e serviços, usando o hino nacional como banda sonora. Não aconteceu nada. Eventualmente a PT vendeu mais produtos.
Agora, a coberto da Guimarães 2012, e muito bem, o designer anónimo e subversivo maismenos promoveu pelas ruas da cidade uma nova versão da "Portuguesa" com uma letra bem mais adequada aos nossos tempos. Aguardemos pelo que farão as mentes conservadoras deste país. O vídeo é muito bom.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Diz-me onde vives que eu digo-te quanto é que ganhas!

Nuno Ferreira Santos, publico.pt, 1st May 2012, Lisbon
A Antena 1 (um dos canais de rádio de serviço público da RTP que o actual governo neofascista, ultraliberal, o que lhe queiram chamar, quer privatizar – leia-se – calar!), fazendo jus à sua função de serviço público, preparou uma interessante cobertura ao dia 1 de Maio de 2012, Dia do Trabalhador, pedindo aos seus correspondentes no estrangeiro um apontamento sobre as condições laborais nos países em que se encontram (não é bem assim, mas podia ser; a ideia seria descrever as condições laborais de uma série de países e transmitir o apontamento hora a hora, em cada noticiário). Qualquer coisa como "quanto é o salário mínimo no país onde vives?" Sabe sempre a pouco, mas foi uma boa ideia, bem explorada, que nos faz lembrar que a "nossa" rádio está viva e recomenda-se. E talvez por isso o ministro a queira calar.

Por outro lado, a partilha de conteúdos do canal RTP (Rádio e Televisão) é deficiente, antiquada, pouco flexível, labiríntica, super protectora dos direitos de autor (mesmo que os autores não vejam um chavo a mais pelo seu trabalho). E por essas razões e outras mais, o Meios de Produção apenas pode direccionar para a audição dos apontamentos referidos (alguns), sem que haja qualquer garantia de que amanhã os links estejam acessíveis. Pior ainda, se quiser ouvir quanto ganha um trabalhador no Bangladesh, na Venezuela ou em Israel, esqueça, já não vai a tempo. A Antena 1 (ou RTP, como preferirem) gastou meios e recursos para fazer um pequeno apontamento de grande qualidade mas que ninguém ouviu e mais ninguém vai ouvir porque, entretanto, ninguém vai alimentar o sítio da Antena 1 na Internet. Por isso, ouça o que está na rede enquanto é tempo (porque vai desaparecer enquanto o diabo esfrega um olho).


Quanto é o salário mínimo...

Na Grécia (salário mínimo: menos de €600; antes da troika €750)

Em Angola (salário mínimo: €115)

No Brasil (salário mínimo: menos de €800)

Na Rússia (salário mínimo: €115)

Na Bélgica (salário mínimo: €1440)

Na Alemanha (não há salário mínimo, excepto em alguns ramos de actividade económica; a Merckel não quer salários mínimos; salário médio dos alemães €3500 brutos; os políticos são os mais bem pagos da Europa, os seus vencimentos estão alinhados com as instituições políticas da União Europeia, que são os mais altos)

Na China (salário mínimo: varia de região para região, entre €100 e €300)

Em Timor (não há salário mínimo, a referência é o salário mais baixo da função pública: 115 dólares/mês [menos de €115/mês])

No Bangladesh (salário mínimo/médio: €43)

Na Venezuela (salário mínimo: cerca de €300)

Em Israel (salário mínimo:?)
 
elpais.es, 1st May 2012, Madrid, Spain
Mohamed Azakir/Reuters; 1st May 2012, Beirut, Lebanon

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Jornalistas Portugueses na Greve Geral de 24 de Novembro de 2011 – Guia essencial para participação da classe

A foto ilustra uma notícia sobre a greve decidida pelos jornalistas pernambucanos, a 7 de Novembro de 2011, e foi publicada originalmente pelo OmbudsPE.org.br, um projecto de comunicação do Centro de Cultura Luiz Freire, a quem agradeço a reprodução.
 «Aos jornalistas (sócios e não sócios do Sindicato de Jornalistas)

Como se sabe, a Direcção do Sindicato dos Jornalistas apoiou a convergência das duas centrais sindicais na convocação de uma greve geral para o próximo dia 24 e tem explicado aos jornalistas as razões pelas quais é importante a participação de todos nesta jornada de luta. Nesse sentido, apresentou e publicou um pré-aviso de greve de 24 horas, abrangendo os jornalistas ao serviço das entidades singulares e colectivas proprietárias de órgãos de comunicação social.

Procurando apoiar os jornalistas nas formas de participação na Greve Geral que queiram adoptar, bem como esclarecer dúvidas que ainda persistam relativamente ao exercício desse direito, a Direcção pede a maior atenção para o seguinte:

1. Direito à greve – O direito à greve é garantido a todos os jornalistas, independentemente da natureza do vínculo contratual, da posição hierárquica na empresa, da localização do posto de trabalho e da qualidade de associado.

2. Direito ao silêncio – As empresas não podem recolher informações prévias sobre os jornalistas que tencionam ou não aderir à greve, nem os trabalhadores são obrigados a prestar essa informação, seja a que pretexto for, não podendo o seu silêncio sofrer qualquer sanção. Todas as iniciativas das empresas com esse objectivo devem ser denunciadas.

3. Sem restrições – O jornalismo não é uma actividade compreendida nas obrigações de serviços mínimos nem há qualquer restrição ou excepção legais ao direito de participação dos jornalistas na greve, não podendo ser aceite qualquer pretexto imposto pelas empresas, inclusivamente o fecho de edições.

4. Excepções – Em caso de situações excepcionais, designadamente catástrofes naturais de grande magnitude ou calamidade pública, será o próprio Sindicato dos Jornalistas a determinar a suspensão total ou parcial da greve, com vista à adequada cobertura informativa dessas ocorrências.

5. Período de paralisação – O pré-aviso e greve abrange todo o dia 24 de Novembro, isto é, entre as 00h00 e as 24 horas. Os jornalistas cujos horários de trabalho se iniciem antes das 00h00 ou terminam após as 24 horas paralisam por todo o tempo de trabalho desde que o mesmo seja maioritariamente prestado nesse dia.

6. Adesão – A adesão dos jornalistas à greve consiste na sua não comparência ao trabalho e não carece de qualquer formalidade, nem sequer de justificação, nem prévia nem posterior, uma vez que o pré-aviso de greve constitui justificativo bastante. Os jornalistas que decidam aderir à greve já no decurso da respectiva jornada de trabalho podem abandoná-la a qualquer momento.

7. Permanência nas redacções – Os jornalistas em greve devem abster-se de permanecer no interior das redacções, mesmo que a pretexto de realização de tarefas que não se relacionem com a edição do dia. O eventual acesso aos locais de trabalho para efeito de verificação de adesões à greve deve ser feito de forma breve e discreta e sem interferir no direito a trabalhar de outras pessoas.

8. Piquetes e concentrações nas empresas – Nas empresas onde for possível, nomeadamente na sede da Agência Lusa, na sede da RTP e na RTP-Porto, os jornalistas que puderem deslocar-se por meios próprios deverão concentrar-se com outros trabalhadores à porta das instalações, pelo maior período de tempo possível.

9. Concentrações sindicais – A fim de dar expressão pública à jornada de luta, o movimento sindical realiza concentrações de trabalhadores em várias dezenas de localidades, especialmente nas capitais de distrito. É importante a participação também dos jornalistas que puderem deslocar-se para esses pontos.

10. Pequenos actos – O êxito da greve geral também pode ser obtido através de pequenos mas importantes actos, tanto pelos trabalhadores em greve como por aqueles que não têm condições para cumprir a greve como gostariam, contribuindo para dar força a esta luta.

Alguns exemplos:

- Não utilizar transportes públicos;

- Em caso de utilização de transporte próprio, reabastecer o combustível na véspera;

- Fazer as refeições em casa, de preferência preparadas de véspera. Em caso de necessidade de fazer refeição fora, levar de casa;

- Abster-se de fazer compras no dia, precavendo-se das necessárias na véspera e adiando as menos urgentes para o dia seguinte;

- Reduzir ao mínimo estritamente indispensável o consumo de electricidade, gás, água e de comunicações telefónicas;

- Não levar os filhos às creches/jardins-de-infância e escolas;

- Abster-se de recorrer a serviços públicos e/ou privados a não ser em caso de absoluta necessidade.

Lisboa, 23 de Novembro de 2011

A Direcção do Sindicato de Jornalistas»

Se quiser saber mais sobre os direitos e deveres dos trabalhadores em greve deve consultar este postal: http://meiosdeproducao.blogspot.com/2010/11/tudo-o-que-voce-sempre-quis-saber-sobre.html


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Defesa do serviço público de informação silenciada em Portugal

O debate em defesa do serviço público de rádio e televisão e serviço público de agência noticiosa em Portugal, organizado pelo Sindicato de Jornalistas, na quarta-feira à tarde (06/07/2011), em Lisboa, parece ter sido ignorado pelos órgãos de comunicação social e também não são visíveis reacções ou discussões sobre o tema na internet (refiro-me aquele espaço da internet que não necessita de inscrição do utilizador).

Aparentemente, os jornalistas e o público (a base da opinião pública) estão alheados ou anestesiados face às intenções do actual governo em acabar com os serviços públicos mencionados.

On-line, os jornais diários de referência – Jornal de Notícias, Público, Diário de Notícias, Correio da Manhã, i, Expresso (não consegui aceder ao Sol, talvez por ser sexta-feira) – não fazem qualquer referência ao debate, o que poderá significar que para estes órgãos de informação o serviço público de rádio e televisão e serviço de agência noticiosa não tem importância, não é relevante. Pode até significar outra coisa, por exemplo, o silenciamento do Sindicato de Jornalistas, que organizou o debate. No fundo, o serviço de agenda dos órgãos de informação, que normalmente é composto por editores e chefias, sejam eles quais forem, não atribuem importância ao assunto, pelo que não deve ser divulgado nas suas páginas. Penso que isto é significativo.

Seja como for, é preocupante este alheamento/silenciamento/desinteresse face a uma série de serviços básicos na área da informação, que são inerentes às sociedades democráticas contemporâneas, e que são objecto de acompanhamento sistemático, por parte dos poderes e do público, nos chamados países desenvolvidos (ou em vias desenvolvimento).

Deixo o link da notícia do debate publicada no sitio do Sindicato de Jornalistas, que faz a síntese do acontecimento.

Apanhei também, através da RTP e da SIC, os primeiros parágrafos da notícia da Agência Lusa, que foi o único órgão de informação a cobrir o acontecimento. A notícia da Lusa, integral, pode ser lida no site Meios & Publicidade, aqui.

CONVIDO TODOS OS LEITORES DO MEIOS DE PRODUÇÃO A UTILIZAREM A CAIXA DE COMENTÁRIOS PARA DIZER O QUE PENSAM SOBRE OS SERVIÇOS PÚBLICOS DE INFORMAÇÃO E SOBRE AS INTENÇÕES DO GOVERNO.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Angela Merkel wird vermißt!

O centro do Porto hoje à tarde seguia assim:
 
 
 
 Milhares de trabalhadores do norte e centro do País foram à Avenida dos Aliados mostrar que querem outra política; que não querem a troika e as suas políticas que nos lançam na recessão; e dizer que há alternativas, quais são e como devem e podem ser implementadas. E lembraram que no dia 5 de Junho há eleições e que não querem a outra troika, a do costume, a governar o País. A resolução aprovada pelos trabalhadores portugueses, reunidos no Porto e em Lisboa, pode ser lida AQUI.

Entretanto, soube-se ontem quantos são os trabalhadores portugueses no desemprego e que mais de metade deles já não recebe subsídio de desemprego [a partir do jornal Público]. E soube-se também que Angela Merkel está a usar a situação dos trabalhadores portugueses para fazer campanha eleitoral, quebrando de vez com qualquer intuito de solidariedade que deveria estar na base da construção da ideia de Europa [a partir do Jornal Económico].

Um pouco mais acima, o serviço público de televisão da RTP preparava a sua emissão em directo, com os convidados muito incomodados por terem os trabalhadores portugueses como pano de fundo. Serviço público?!...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Papa em Portugal: Dia 1 (e último!)

Dia 11 de Maio de 2010: Desculpem mas não há nem pode haver distanciamento. O Papa Bento XVI está em Portugal há 10 horas. O serviço público de televisão (canal 1) já leva 10 horas de cobertura noticiosa em directo (excepto compromissos publicitários) sobre a visita papal.

O telejornal das 20h00 coincidiu com o final da missa que o Papa celebrava em Lisboa, no renovado Terreiro do Paço, de onde estava a ser emitido o serviço noticioso. 20h50, o telejornal ainda não deu outras notícias que não sejam a visita do Papa, que teve sempre cobertura em directo. Depois do espaço publicitário, seguem notícias nacionais (fala-se à boca cheia, sem qualquer informação oficial, de que o Governo e o principal partido da oposição aceitam cortar o subsídio de Natal do trabalhadores portugueses – uma das mais violentas medidas contra os trabalhadores desde a década de 1980; aeroportos nacionais encerrados por causa da nuvem do vulcão da Islândia; relatório da comissão de Ética do Parlamento sobre a liberdade de expressão finalizado), e da Europa (novo governo na Inglaterra) e do desporto (a Selecção Nacional de Futebol entra em estágio para o mundial que começa em Junho) e …mais Papa! O telejornal termina às 21h33, na mesma altura em que se justifica o directo: o Papa a dirigir-se aos jovens, a desejar boa-noite e a agradecer. Telejornal acabou por durar mais três minutos, finalizando com imagens do Papa e música sacra.

De notar que a única vez que o Papa se dirigiu aos jornalistas, no avião que o transportava para Portugal, durante 15 minutos, a cobertura foi deficiente, para não dizer outra coisa. Mostrou-se uma declaração fora do contexto que unanimemente foi associada aos casos de pedofilia na Igreja, e comentários de jornalistas da Reuters e RAI sobre o que disse. E o que disse o Papa durante 15 minutos? Não sabemos. Pelo jornalista da RAI soubemos que abordou a crise economia mundial e a questão das sociedades capitalistas.

(no canal 2 da RTP finalmente uma lufada de ar fresco no comentário sobre a visita papal, pelo jornalista da TSF e padre Manuel Vilas-Boas)

Ora aí está: serviço público de televisão português!

Deixo-vos o link do contrato assinado entre o Governo e a RTP (32 páginas em pdf)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Tudo o que você sempre quis saber sobre... mas nunca teve coragem de perguntar

Estes 13 minutinhos são preciosos! A situação do serviço público de televisão em Portugal é tão mau, que estes 13 minutinhos impressionam pela simplicidade e eficácia. Oxalá houvesse mais minutinhos como estes na nossa RTP!

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Tiananmen?

A RTP (Canal 2, pois claro!) lá vai prestando um serviçozinho público, pago pelos contribuintes, e no passado dia 4 de Junho, quando se comemorava a passagem de duas décadas sobre o massacre de Tiananmen, na China, exibiu um fabuloso documentário do francês (?) Charlie Buffett, de seu nome "Tian Anmen, Memóire Interdite" (em inglês, "Tiananmen, Forbidden Memory"). Gostava de ver a ficha técnica do filme de 52 minutos, mas não encontro nada. Gostava de ver a banda sonora e o nome de muitos dos entrevistados. Mas nada. A própria RTP, pois claro, omite o nome do realizador e nome original do filme (Pressões da embaixada chinesa?). O filme é recomendadissimo! E fresco, fresquinho, passou na televisão francesa a 31 de Maio.

Deixo estes links, que foi a única coisa decente que encontrei:
http://wiki.france5.fr/index.php/TIAN_ANMEN,_MEMOIRE_INTERDITE

http://toutsurlachine.blogspot.com/2009/05/television-tiananmen-memoire-interdite.html



domingo, 10 de maio de 2009

Serviço Público na televisão portuguesa!

Está quase a fazer um ano que morreu Bartolomeu Cid dos Santos. Não sabia quem era até há pouco. Às vezes a televisão pública surpreende, apenas porque está a cumprir o seu papel. Vi o documentário de Jorge Silva Melo sobre o artista e fiquei fascinado; e informo essas cabeças bem pensantes que não conheço tudo e nem consigo. Mas agora já sei quem foi Bartolomeu Cid dos Santos porque a televisão pública cumpriu o seu papel. Não, não vi Os Contemporâneos, nem o Marcelo, estava a dar algo muito, muito melhor no outro canal.

Há bastante informação na web, pode saber algo mais do Barto, aqui, aqui e aqui. Ficam algumas imagens.


[ACT. 24/Mai/2009: o Benárd morreu no mesmo dia do Barto, mas um ano depois]