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domingo, 2 de janeiro de 2022

Obituário 2021

Voltamos a mais uma série de obituários referente a figuras que consideramos importantes falecidas em 2021. Outros houve que foram lembrados oportunamente e estes são agora homenageados porque foram sendo atirados para um baú e recuperados através do calendário. Relembro o que já disseramos noutras ocasiões: são figuras importantes para nós, agora que vamos ficando mais velhos e mais próximos da morte. Queremos apenas relembrá-los porque há-de chegar um tempo em que já não teremos tempo. Em algum momento estas figuras foram inspiradoras ou "odiadas". Em qualquer dos casos foram pessoas que nos puseram a pensar ou a sonhar. E recordamo-las aqui e agora.

 

Isabel da Nóbrega (1925-2021)

Isabel da Nóbrega via JN on line (não assinada)
 

Michail "Mikis" Theodorakis (1925-2021)

Mikis Theodorakis por 902.gr via peoplesdispatch.org

Aprecio a multifacetada música de Mikis Theodorakis mas, se observarmos um pouco do tempo que viveu e como o viveu, temos que apreciar a personalidade. Comecei por conhecê-lo através da banda sonora de Zorba, O Grego/Zorba, The Greek (1964), de Michael Cacoyannis, mas rendi-me definitivamente com a banda sonora de Z (1969), de Costa-Gravas, com Yves Montand. O filme e a música são absolutamente excecionais e a música surge intrincada no ambiente e na personagem. Mas sigam os filmes e percebem logo: Ill met by moonlight (1957), de Michael Powell e Emeric Pressburguer; Honeymoon (1959), de Michael Powell; Phaedra (1962), de Jules Dassin; Serpico (1973), de Sidney Lumet, entre vários outros.  Na verdade, Mikis Theodorakis é um compositor excecional e a sua música deve ser ouvida, tocada e celebrada.

 

Jean-Paul Belmondo (1933-2021)

Imagem de Belmondo em À Bout de Soufle (1960), de Jean-Luc Godard via bamfstyle.com

Ouvindo o seu nome, lembro-me logo de À bout de souffle/O Acossado (1960), de Jean-Luc Godard. Fez mais algum filme? Fez, e bons! Continuou a trabalhar com Godard, fez os filmes de Jean-Pierre Melville, trabalhou também com Jean Becker, Louis Malle, François Truffaut, Henri Verneuil, Claude Chabrol, Alain Resnais, e ainda filmou com Agnés Varda, Claude Lelouch, Patrice Leconte, Cédric Klapisch. Não deixa de ser um produto do star system francês e europeu que procurava imitar o star system americano. E por isso mesmo contracenou com Romy Schneider, Jean Seberg, Sophia Loren, Jeanne Moreau, Claudia Cardinale, Emmanuelle Riva, Anna Karina, Ginna Lollobrigida, Françoise Dorlèac, Catherine Spaak, Catherine Deneuve, Geraldine Chaplin, Stefania Sandrelli, Geneviève Bujold, Marlène Jobert, Dyan Cannon, Annie Giradot, Jacqueline Bisset, Mia Farrow, Sophie Marceau e também com Henri Vidal, Lino Ventura, Jean Gabin, Jean Claude Brialy, David Niven, Eli Wallach, Robert Morley, Alain Delon, Omar Sharif, Charles Boyer e Romain Duris. Não são todos bons filmes, é verdade, mas há alguns que o são.

 

Jorge Sampaio (1939-2021)

Jorge Sampaio por Paula Rego via Museu da Presidência

Jorge Sampaio era uma pessoa fácil de gostar. Nunca tive especial simpatia por ele, mas também nunca antipatizei com ele. Entrevistei-o uma vez, como candidato às eleições presidenciais de 1996, e segui os últimos dias da campanha eleitoral integrado na sua comitiva (embedded), percorrendo dezenas de localidades entre, mais ou menos, Coimbra e Braga, passando pelo grande bastião do Partido Socialista, a região da Beira Alta, com o epicentro no Fundão. Chegamos a estar em Belmonte, onde não morava (e não mora!) quase ninguém, mas onde fez uma conferência de imprensa para os jornalistas locais (Jornal do Fundão oblige!) e da sua comitiva, e gravou um tempo de antena ou um vídeo de propaganda política com o realizador Joaquim Leitão (Duma vez por todas, 1986). Como jornalista foi uma experiência excelente, também porque permitiu conhecer pessoalmente Jorge Sampaio, enquanto ser humano, enquanto personalidade sociopolítica, enquanto ser frágil perante determinadas situações, ou forte, perante outras; permitiu ver a máquina de campanha eleitoral por dentro, mas reconheço hoje que é contraproducente ser jornalista engajado e depois tentar manter a independência ou mesmo a aparência de independência. Não tenho muito a dizer, mas reconheço a carreira política, incluindo a sua capacidade para gerar consensos, como aconteceu na Câmara Municipal de Lisboa, e na sua atuação como Presidente da República, mas também enquanto lutador pela liberdade, no tempo da ditadura. E é justo prestar-lhe homenagem! Lembro-me bem das discussões dos jornalistas da comitiva que procuravam arrancar-lhe alguma declaração mais ou menos acintosa contra a direita (concorria contra Cavaco Silva!), e o apelidavam de Rainha de Inglaterra, pois era esse o papel que parecia querer assumir na Presidência, ou seja, o de ser o garante das instituições, vigiando, observando, falando nos bastidores, mantendo sempre uma postura institucional, não afrontando o governo, como fez o seu antecessor ainda no poder, Mário Soares. Viu-se bem que os jornalistas queriam faca e alguidar e foi o que tiveram depois, com Jorge Sampaio na Presidência! Qual Rainha da Inglaterra, qual carapuça! O que é interessante é que acredito mesmo que ele queria ter tido um papel mais tranquilo na Presidência, mas a realidade ultrapassou-o.

 

José-Augusto França (1922-2021)

França, em 1949, por Fernando Lemos via Fundação Gulbenkian

José-Augusto França foi um interessante historiador de arte, uma disciplina nova em Portugal, nos anos de 1950 e 60. Li e guardo muitos dos seus livros. São importantes, mas não são propriamente obras referenciais, apenas por causa da forma como se apresentam. Quer dizer, a história atual, a historiografia e as ciências sociais, implicam um conjunto de referências, citações, corelações, um quadro epistemológico multidisciplinar que está ausente na sua obra historiográfica, apenas porque o autor se baseou no seu conhecimento empírico e poucas vezes referencia outras fontes bibliográficas. Mas isto explica-se por duas razões: a primeira, é uma questão de estilo, uma vez que José-Augusto França foi dos primeiros historiadores de arte em Portugal, o que significa que não foi encontrar muitas referências bibliográficas nos seus antecessoras, simplesmente porque não as havia ou não eram credíveis; a segunda, propositadamente, o autor não tem interesse em citações de autores que o antecedem porque esses fazem parte da “história inventada” que a ditadura salazarista proporcionou, quando o regime procurou reescrever a história, mitificando o suposto passado glorioso dos portugueses, procurando justificar as intervenções no património, a colonização ou “as obras” do regime, aquela panóplia de estilos facilmente identificáveis, que vai desde o vernáculo na arquitectura ao neorrealismo na pintura e na literatura. De resto, foi um dos principais divulgadores da obra de Amadeo de Souza Cardoso, em Portugal e em França, onde vivia, e, se não fosse por isso, poucos saberiam hoje quem era esse marco da pintura modernista. É responsável por homenagens menos óbvias a autores que se não fosse por elas tinhamos demorado muito tempo a percebermos a sua importância, como Amadeo, Almada e mesmo Lino. Os historiadores de arte que lhe sucederam obviamente foram beber muito ao seu trabalho, que foi longo, variado e, ainda assim, marcante. Tenho muitos livros de José-Augusto França e até uma segunda edição do seu romance Natureza Morta (1989), originalmente publicado em 1949, que precedeu a obra historiográfica. Não sabia que tinha pertencido ao grupo Surrealista de Lisboa (1947-1949) e só por isso merecia uma homenagem.

 

Lee "Scratch" Perry (1936-2021)

Lee Perry, getty  images, via CM jornal

Lee “Scratch” Perry foi um excêntrico e inovador produtor de Reggae, sobretudo na década de 1960, fundador da banda The Upsetters, com quem gravou inúmeros álbuns, embora fosse mais correto dizer “músicas”. Nesta época, na Jamaica e na Inglaterra, e em todo o lado, as músicas eram vendidas em singles e os álbuns funcionavam como repositórios de singles ou de “êxitos”. Eram poucos os artistas que os apresentavam como obras completas, conceptuais. Ficou conhecido por ser o fundador do Dub, estilo musical associado ao Reggae e que podemos descrever como uma associação de efeitos sonoros à música original, normalmente adicionados em pós-produção, mas nem sempre, veja-se, o conceito de sound-system, e que hoje são comuns em todos os géneros musicais. Teve um importante papel nas gravações e regravações dos êxitos iniciais de Bob Marley & The Wailers, já na década de 1970. Vi-o uma vez ao vivo no Hard Club, ainda na fase inicial, na outra margem, em Vila Nova de Gaia. O espetáculo foi banal, muito inferior à sua importância na história da música moderna.

 

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021)

Otelo Saraiva de Carvalho por Rui Ochoa, via Expresso
 

Otelo foi o obreiro do golpe militar de 25 de abril de 1974, que redundou na Revolução de Abril. No período revolucionário, entre 1974 e 1976, liderou o Copcon – Comando Operacional do Continente, um grupo militar do Movimento das Forças Armadas que funcionava como garante da ordem pública, enquanto os recém-formados partidos políticos (com a notável exceção do PCP) preparavam a Constituição Democrática e as eleições livres. A direita portuguesa e o setor reacionário e saudosista atribuem-lhe as maiores atrocidades nesse período, incluindo uma tentativa gorada de golpe de Estado em novembro de 1975. As acusações são falsas e exageradas. Mais tarde foi candidato, derrotado, mas com uma considerável percentagem de votos, às eleições presidenciais. Na década de 1980 liderou o grupo terrorista de ação popular FP25, responsável por vários assassinatos. Foi condenado, absolvido de crimes de sangue, ou seja, não foi responsável, nem moral, nem operacional, pelas mortes ocorridas nos atentados e nos assassinatos das FP25, sendo, mais tarde, amnistiado pelo Presidente da República, Mário Soares. Foi um homem do seu tempo: militar, lutou nas colónias contra os “terroristas”, propondo depois o abandono total e incondicional dos territórios coloniais; foi revolucionário, líder popular e terrorista. Gostava de ser ator e chegou a ter um papel numa série televisiva, sofrível, cumprindo um sonho antigo. Era casado, mas partilhava o lar com uma amante, numa relação bígama e consentida durante longos anos (não quero melindrar ninguém, pois cito de cor e posso estar errado). Assinou alguns livros sobre o golpe de 25 de abril de 1974, que derrubou a infame ditadura que vigorava em Portugal desde 1926, bem escritos, de grande qualidade e utilidade. 

Um outro Otelo mais simpático, foto não assinada, via Antena Minho

O governo socialista de António Costa e o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa negaram-lhe o luto nacional, negaram a justa homenagem de um dos obreiros da nossa, agora já não tão jovem, democracia. Talvez porque tivessem medo que a direita emergente e cada vez mais radical visse o ato como uma forma de radicalizar o espaço político português. Como se isso agora fosse possível travar. Foi sempre um homem que parecia ter duas caras, conforme os olhos que a vêm. E por isso é retratado muitas vezes de forma ambigua, como nestas imagens que aqui mostramos


Jean-François Stévenin (1944-2021)

Stévenin por Dauphine Libere via actu.fr
 

Julião Sarmento (1948-2021)

Sarmento, Museu do Chiado, Trabalhos dos Anos 70, 2002, por Miguel Silva via Público

Pedro Tamen (1934-2021)

Pedro Tamen por António Pedro Ferreira via Expresso


Aprecio a poesia de Pedro Tamen. Nunca conheci a figura, a personagem, mas retenho a sua discrição, elegância e solidez. Há uma história em que ele é personagem incidental de que tive conhecimento, talvez nas páginas dos suplementos de cultura do Expresso (quando faziam suplementos de cultura decentes) e que depois pude perguntar ao principal visado. Servem estas linhas também para prestar homenagem a outro poeta, Joaquim Castro Caldas (1956-2008), que aqui lembrámos oportunamente. A história, conto-a eu assim: era frequentador do Pinguim Café onde se realizavam (e realizam) sessões de poesia, às vezes dinamizadas pelo poeta e diseur Joaquim Castro Caldas. Ele era verdadeiramente um diseur ao nível dessa referência que é o Mário Viegas (1948-1996). Mas tinha um problema, era autodestrutivo e provavelmente alcoólico, o que podia tornar as sessões de poesia num espaço infernal, em que Castro Caldas provocava e insultava tudo e todos e, por vezes, nem sequer conseguia acabar um poema. Chegou a haver sessões de pancadaria… enfim, empurrões, apertos e cerveja pelo ar. Mas eu lembrava-me do Joaquim Castro Caldas porque tinha lido que ele pedira, penso que na década de 1980, um subsídio à Fundação Calouste Gulbenkian para realizar o seu suicídio em público, numa praça de Lisboa, pretensão que lhe havia sido negada. Nesse ano em que ele morreu, encontrava-o muitas vezes a almoçar num restaurantezeco na Rua de Fernandes Tomás, perto da redação de O Primeiro de Janeiro, onde eu trabalhava. Então resolvi perguntar-lhe que história era aquela de ele pedir um subsídio à Gulbenkian para se suicidar. Riu-se bastante, com espanto, e recordou que fora apenas a atitude de um poeta, o ato grandioso do poeta maldito que seria recordado (e certamente lido) no ato da sua morte. Pretendia fazer o suicídio subsidiado ao jeito do que clamara Mário de Sá-Carneiro, a fanfarra com a banda a tocar, o burro, a festa. Na verdade, era uma provocação artística ao estado de coisas que se viviam na cultura, na literatura e na poesia, naqueles tempos loucos em que entravam rios de dinheiro da Europa, mas onde a cultura não valia mais que um “Concerto de Violino de Chopin” (Santana Lopes dixit). Castro Caldas disse-me que Pedro Tamen, que na altura era administrador da Gulbenkian, lhe respondeu por carta muito educadamente dizendo que a Fundação não promovia atos artísticos que envolvessem o suicídio. Acabámos por falar sobre Pedro Tamen, que ele tinha como um autor muito respeitável, com uma obra de qualidade, embora longe dos seus temas de eleição. Já na altura conhecia a poesia de Pedro Tamen, cuja leitura aprofundei entretanto. Mas nunca tive a sorte de ler Joaquim Castro Caldas, simplesmente nunca encontrei um livro seu e acabo por recordá-lo apenas como um poeta efémero. Um poeta maldito. Ao Pedro Tamen recordo-o como um poeta orgânico, autor de uma poesia organicista. Isto não quer dizer muita coisa, mas a resposta é sempre a mesma: leiam-nos. É mais um ciclo que se fecha.

 

Anita Lane (1960-2021)

Anita Lane via the red hand files

É bonito o obituário de Nick Cave.


Christopher Plummer (1929-2021)

Plummer em The Sound of Music (1964), via wikipedia
 

Jean-Claude Carrièrre (1931-2021)


Carrière, por Studio Harcout Paris, 2006

Parece ou é mesmo incrível que a morte de Jean-Claude Carrière tenha sido praticamente ignorada pela imprensa e pelas redes sociais. Façamos um exercício breve e muito simples. O que têm em comum estes filmes? Le journal d’une femme de chambre (1964), de Luis Buñel; Belle de Jour (1967), de Luis Buñel; La voie lacté (1969), de Luis Buñel; La piscine (1969), de Jacques Deray; Taking off (1970), de Milos Forman; Le charme discret de la bourgoisie (1972), de Luis Buñel; Le fantôme de la liberté (1974), de Luis Buñel; Cette obscur objet du désir (1977), de Luis Buñel; Le Tambour/Die Blechtrommel (1979), de Volker Schlöndorff; Sauve qui peut (la vie) (1980), de Jean-Luc Godard; Passion (1982), de Jean-Luc Godard; Danton (1983), de Andrzej Wajda; Un amour de Swann (1984), de Volker Schlöndorff; L'Insoutenable Légèreté de l'être/The Unbearable Lightness of Being (1988), de Philip Kaufman; Les possédés (1988), de Adrezej Wajda; Valmont (1989), de Milos Forman; Cyrano de Berjerac (1989), de Jean-Paul Rappeneau; At play in the fields of the Lord (1991), de Héctor Babenco; Le Hussard sur le toi (1995) de Jean-Paul Rappeneau; Birth (2004), de Jonathan Glazer; Les fantomes de Goya (2006), de Milos Forman; Ulzhan (2006), de Volker Schlöndorff; Das weiße Band/O Laço Branco (2008), de Michael Haneke; El artista y la modelo (2012), de Fernando Trueba; At eternity’s gate (2018), de Julian Schnabel. 

 

Chick Corea (1941-2021)

Corea, foto não referenciada via mixdownmag.com.au, mas da getty images
 

Incomoda-me que Chick Corea tenha sido um fervoroso e importante adepto da Igreja da Cientologia e seguidor de L. Ron Hubbard. E, porém, o que é que isso importa? A homenagem é justa.

 

Armanda Passos (1944-2021)

Sem título 146)1, tinta-da-china e guachexpapel, 35x50, via saomamede.com

 

João Cutileiro (1937-2021) 

Estátua de S. João na Praça da Ribeira, no Porto, por Filipa Brito, via cmporto

Olga Prats (1938-2021)

Olga Prats, foto sem data e não assinada, via CM Jornal

 

Guilherme Inês (1951-2021)

Simplesmente não há imagens de Guilherme Inês decentes online, via JN

 

Pat Martino (1944-2021)

Martino por Michel DelSol, Getty Images, via npr.org

 

José Eduardo Pinto da Costa (1934-2021)

Pinto da Costa, movenoticias, via Record
 

Houve um período, entre o final da década de 1980 e o início da década de 1990, em que só havia dois cursos superiores de jornalismo em Portugal. Um em Lisboa, numa instituição pública, que não sei identificar agora, e outro no Porto, numa instituição privada, a Escola Superior de Jornalismo, depois integrada na Universidade do Porto. A maior parte dos professores vinham do Estado Novo, ou seja, formaram-se jornalistas durante a ditadura, sob o manto da censura, nos grandes órgãos de comunicação da cidade do Porto, O Primeiro de Janeiro, O Comércio do Porto e Jornal de Notícias. Portanto, o ensino do jornalismo nas primeiras décadas da democracia refletia essa escola. Por exemplo, entendia-se que os futuros jornalistas deviam ir diariamente às conferências de imprensa da PSP e solicitar informações ao Instituto de Medicina Legal, sempre que havia um crime violento. Entendia-se que os aprendizes de jornalismo deviam assistir a uma autópsia no Instituto de Medicina Legal. Foi aí que conheci o excêntrico José Eduardo Pinto da Costa. Devo dizer que não foi tanto a autópsia que me impressionou, muito(a)s colegas abandonaram a sala e outro(a)s até chegaram a desmaiar. Impressionou-me mais, até hoje, o pequeno museu de horrores que Pinto da Costa fazia questão de mostrar no fim da autópsia. Essa sim, era uma verdadeira lojinha de horrores, pedaços de corpos guardados em frascos ou quadros, cada qual mais horrível que o outro. Com aquela figura mais ou menos imperscrutável, suspeito que tinha um certo prazer sádico em apresentar o horror às jovens plateias que todos os anos lhe apareciam no Instituto de Medicina Legal. Entretanto, apareceu o computador, depois a internet, e a visita à morgue deixou de fazer parte do currículo dos aspirantes a jornalista. A PSP deixou de fazer conferências de imprensa, sobre as quais se queixava de não aparecer ninguém, e agora comunica pelo Facebook e pelo Twitter. Entretanto, Pinto da Costa reformou-se, abandonou a pequena lojinha de horrores, que deve estar guardada numa qualquer cave esquecida da Universidade do Porto, e tornou-se estrela televisiva nos programas da manhã, entretendo audiências seniores.  Não fosse o seu ar excêntrico e arriscava-se a ficar na história como o irmão do outro.

 

Rogério Samora (1958-2021)

Rogério Samora por Júlio Lobo Pimentel, Global Imagens
 

Robbie Shakespeare (1953-2021)

Robbie Shakespeare via pan-african-music.com
 

Há homens que se reconhecem por serem dois: Sly & Robbie.

 

Dean Stockwell (1936-2021)

Stockwell em 1965, via wikipedia


Frederik de Klerk (1936-2021)

De Klerk em 1990, via wikipedia
 

Pedro Gonçalves (1970-2021)

Pedro Gonçalves, sem data e assinatura, via rr.sapo.pt

 

Há mesmo homens que se reconhecem por serem dois? Não, um não é a soma de dois, são únicos: Dead Combo.

 

João Paulo Cotrim (1965-2021)

Cotrim, sem data e assinatura, via twitter comunidade cultura e arte
 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Obituário 2020 (parte II)

Sean Connery (1930-2020)

https://www.vanityfair.com/hollywood/2020/10/sean-connery-dies

Deve dizer-se o seguinte: Sean Connery será lembrado por muitas razões, mas a menor delas será a de ter feito os filmes do James Bond.

 

Cruzeiro Seixas (1920-2020)

Foto de Nelson Garrido/Jornal Público

 

Gonçalo Ribeiro Teles (1922-2020)

Desenho de GRT, via TimeOut
 

Diego Maradona (1960-2020)

A morte de Maradona fez-me recordar o período em que seguia mais ou menos de perto o futebol das ligas europeias e os mundiais. Aqui no Meios de Produção o futebol não é apreciado tanto como um desporto, mas como fenómeno de alienação de massas, que tem a particularidade de unir um povo em torno de uma equipa de jovens milionários com poucas habilitações, mas com enormes egos. O futebol revela-se como uma válvula de escape à contestação contra os políticos, carestia de vida e desigualdades, unindo adeptos, sobretudo em torno das seleções nacionais, em apoio a um objetivo comumente aceite, que é a vitória sobre o adversário (normalmente um adversário que representa um país mais rico) e a conquista de um troféu, que não tem outra importância que não seja um imaginado prestígio nacional e internacional. Por exemplo, na Europa, uma união de países ricos, a Seleção Portuguesa de Futebol, é uma equipa temida que figura entre as cinco primeiras nos rankings das melhores seleções… Mas Portugal é um país pobre, se comparado com a vizinha Espanha ou com os países que lideram a União Europeia, França e Alemanha. A vitória das equipas portuguesas e/ou da seleção sobre as suas congéneres europeias é sempre celebrada como uma vitória dos ricos contra os pobres, dos menos desenvolvidos contra os desenvolvidos. 

 

Quando Portugal concorreu à organização do Campeonato da Europa de Futebol, em 2004, a FIFA “impôs” (assim nos foi dito) a construção de dez novos estádios de futebol, desígnio que os portugueses acordaram sem discussão, desviando dinheiro do erário público, que devia ter sido aplicado em infraestruturas, construção de hospitais e escolas. A maior parte dos novos estádios foram usados uma vez e depois ficaram sem futebol, sem equipas e sem público. E os maiores estádios foram entregues aos melhores clubes a preço de saldo… O que ganhámos com isso? Anos depois vi os brasileiros fazerem exatamente a mesma coisa, desviar dinheiro público para a construção de estádios de futebol!

 

A morte de Maradona fez-me lembrar tudo isso, a desigualdade vista por um outro prisma, a incompetência, a ausência de debate, a incompreensão e a estupidez. E, no entanto… há coisas maravilhosas no futebol…

 

Nunca fui um adepto de Maradona. As primeiras coisas que vi dele foram simplesmente violência: o incrível jogo da final da Taça do Rei em Espanha, em 1984, em que o argentino pontapeou futebolistas e técnicos como nunca se vira na televisão em direto (nunca percebera bem aquela explosão de violência, até ver alguns documentários sobre a sua vida). Depois foi a “mão de Deus” num jogo do Mundial do México de 1986, contra a Inglaterra, e logo a seguir uma jogada individual em que deixa para trás seis adversários e marca golo. Depois, a vitória da Argentina contra a Itália, no Mundial de 1990, em Nápoles, a cidade onde jogava e era venerado, o que o levou à final. E nesse mesmo jogo da final, o céu e o inferno: primeiro, o hino argentino assobiado do princípio ao fim com Maradona a chamar alto e bom som, para que todos percebessem, “hijos de puta”; depois um jogo miserável para ambos os lados e um árbitro parcial a marcar um penalti inexistente contra a Argentina, resolvendo uma final que deveria ter ido a penaltis. Se não altura não gostava de Maradona, algumas das suas lágrimas também foram minhas.

 

E depois tudo o resto, o vício, as suspensões, o final de carreira, os desvarios, a obesidade, mais lágrimas, e os documentários… Maradona, um herói picaresco. Um talentoso que não passou o teste da fama; um imenso futebolista que veio da sarjeta e para ela voltou; ascensão e queda de um mito do futebol… E por aí fora.

Se gasto tantas palavras para falar de uma figura mais ou menos desprezível, mas também meritória, é porque Diego Armando Maradona é um exemplo daquilo que a humanidade produz constantemente: seres talentosos que são justamente venerados para logo a seguir serem esmagados.

 

Recomendo estes três documentários para se perceber melhor o mito (por ordem de importância decrescente). Lembro que todos eles foram realizados com Maradona vivo:

 

Maradona by Kusturica (2008), de Emir Kusturica – Às vezes parece uma competição de egos, ou uma luta entre a superioridade moral, cultural, intelectual. de um contra o outro. Mas também não é nada disso, é um belíssimo filme de um realizador de cinema que sabe o que é que está a fazer, ainda que também se esteja a autopromover. Vale bem a pena e gosto especialmente do momento com Manu Chao, excerto que mostro em cima.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=iHOc0Hs3dYg

 

Diego Maradona (2019), de Asif Kapadia – O filme mais importante para se compreender Maradona, focado nos seis anos que passou em Nápoles. Para compreensão do mito e como se autodestruiu. Até ao momento, o filme mais recente. Certamente muitos outros se seguirão. A voz de Maradona passa por todo o filme, mas o que vemos são apenas imagens de arquivo, a maior parte delas em vídeo VHS.

Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Pmm7r4ynyIQ

 

Maradona, Un gamin en or (2007), de Jean-Christophe Rosé – Segue a vida do jogador de futebol, desde o Boca Juniores até ao Nápoles, passando pelo Barcelona e pela fratura do tornozelo (o que explica a violência da final da Taça do Rei). Algumas destas imagens são usadas também no filme de Kapadia. Produção do canal Arte.

Filme: https://www.arte.tv/fr/videos/034047-000-A/maradona-un-gamin-en-or/

 

Eduardo Lourenço (1923-2020)

http://www.eduardolourenco.com/index.html
 

Harold Budd (1936-2020)

Foto de Masao Nakagami, via wikipedia
 

John Le Carré (1931-2020)

Foto de David Montgomery/Getty/HarperCollins (1985), via Newsweek

Kim Ki-duk (1960-2020)

Fotograma de Spring, Summer, Fall and Winter... And Spring (2003)

Kim Ki-duk é um estupor! Mas será mesmo? Os seus filmes mostram cenas brutais de humilhação feminina e maus tratos a animais. Chegou a ser processado por várias mulheres que o acusaram de abusos sexuais. Mas os seus filmes também são de uma beleza rara, como Primavera, Verão, Outono, Inverno… E Primavera (2003), Breath (2007), ou mesmo The Bow (2005), onde o cenário é um barco a navegar. A realização de uma retrospetiva completa da sua obra que, decerto, alguém estará a pensar fazer, seria um festival de violência, humilhação, submissão, choque e provocação. Mas também de emancipação, crescimento e estética rara. Vi vários filmes dele, infelizmente nenhum em cinema. Penso que os únicos que estrearam em Portugal, fora dos festivais, foram aqueles três mencionados. Houve um outro realizador sul coreano de nome Kim Ki-duk, nascido em 1934, que realizou mais de 60 filmes (!). Mas dele ninguém se lembra.

 

Eddie Gale (1941-2020)

[Actualização 06/03/2021; via https://eddiegale.com/]

 

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

“Aquele querido mês de Agosto” deixa saudades! E Miguel Gomes é um ovni...

“Aquele querido mês de Agosto” (2008) é um ovni do cinema português, que aterrou nas salas de cinema do mundo inteiro, causando espanto e admiração. Documentário ou falso documentário? Filme de adolescentes? Ficção, mera ficção? Musical? Drama familiar e social? Um filme dentro do filme? 

 

Fábio Oliveira/Hélder e Sónia Bandeira/Tânia, actores amadores ao nível dos melhores profissionais, são o par amoroso ficcionado e "documentado", que domina "Aquele querido mês de Agosto"

“Aquele querido mês de Agosto” é tudo isso e não é nada disso! A história é simples: uma rapariga canta na banda do pai nas festas de verão nas aldeias da região centro do país (nos concelhos de Oliveira do Hospital, Góis, Arganil, distrito de Coimbra). O seu primo de 17 anos chega à aldeia com os pais, antes de seguir para Estrasburgo, onde se vai instalar. Com dotes musicais, começa a tocar guitarra na banda e os dois jovens iniciam uma relação. A rapariga perde a virgindade com o primo e este segue com os pais para França.

 

Este é o drama familiar e social, com alguns pormenores decisivos, como o facto de o pai (que é também o produtor no filme-dentro-do-filme) e a filha acreditarem que a mãe desaparecida foi raptada por extraterrestres, embora na aldeia muitos acreditem – incluindo o pai do rapaz (irmão da mulher desaparecida) – que o casal mantém uma relação incestuosa. 


Sónia Bandeira numa das cenas finais: despedida e recordação do amor consumado

 

Mas estamos instalados no domínio do documentário desde o início do filme: as festas populares nestas aldeias são mostradas como um documento etnográfico, antropológico, sociológico. Desde o Paulo “Moleiro”, o “menino do rio”, que se atira ao rio Alva para ganhar uns trocos e que foi atropelado por marroquinos e que se embebeda militantemente aos fins de semana. O emigrante carregador de andores de procissão com uma hérnia discal que se diz iluminado por um milagre quando o seu andor da Rainha Santa se cruzou com o andor da N.ª S.ª da Saúde. Os cantores e músicos das bandas de música popular (“pimba”) e os pares de dançarinos nas festas nocturnas. Os cafés onde se bebem minis, em meio a conversas fúteis e localizadas, procurando iludir a posição da câmara dos cineastas. A rapariga (que é a protagonista da ficção) que no verão também é vigia florestal, em permanente contacto com os bombeiros via rádio. A banda filarmónica, os bombos e os gigantones, os tocadores de concertina (e acordeão) e os cantadores ao desafio. Os bombeiros em vigia e em curso na proteção da floresta. A paisagem luxuriante do interior centro do país, apesar do predomínio dos eucaliptos. Os atores e figurantes amadores.

 

A "cena do casting", propositadamente absurda, com Miguel Gomes ao centro (de vermelho) e Vasco Pimentel (2.º à esq.) a segurar o "coelho". E restante equipa de realização, produção e actores.

E depois o filme dentro do filme. Uma pequena equipa de filmagem, com o próprio realizador, a confirmar que não tem dinheiro para prosseguir o filme, preocupado apenas com as brincadeiras pessoais, com experimentação sonora, em discussões com o produtor e com a equipa, quase desculpando-se perante o espectador por não ter actores, não ter história e ir filmando o que vê no interior do país, em pleno Agosto.

 

Mas não nos iludamos: Miguel Gomes é um prestidigitador diplomado! Há um facto que é descrito nas notas de produção divulgada à imprensa: esgotou-se a película de 35mm em filmagens nas aldeias, mas ainda nem havia filme. Então a equipa foi para o terreno (o filme foi rodado em 2006 e 2007) filmar em 16mm, incorporando a ficção, no documentário (ou vice-versa), surgindo como pano de fundo a contextualizar o falso-documentário, a ficção e o filme dentro do filme.

Cartaz oficial 2008

 

O resultado é notável! “Aquele querido mês de Agosto” é uma obra maior do cinema português, um filme que pisca o olho ao espectador, que mostra o interior de um país pobre e atrasado (como sempre foi desde a Idade Média), a crendice e a superstição, a "condição" de emigrante, a dicotomia cidade-campo, envoltos numa básica história de amor adolescente, protagonizada por actores amadores, sem que isso seja um inconveniente.

 

E aquela banda sonora… Ninguém imaginaria um filme de qualidade com uma banda sonora onde pontuam Tony Carreira, Banda Diapasão e Marante, Banda Gomape (Emanuel & companhia), José Cid, Dino Meira, José Malhoa, Broa de Mel, Trio Odemira, Conjunto Oliveira Muge… E depois novamente aquele piscar de olhos (Ouvidos? Sentidos?), com as Variações de Goldberg, de Bach, que, de repente, é um dos momentos mais pirosos do filme, porque já não se imagina a paisagem sem aquela vulgar música “pimba”, música popular maliciosa e com a lágrima ao canto olho.

 

Imperdível, para ver, rever e chorar por mais. Miguel Gomes é um dos mais imaginativos realizadores de cinema em actividade. E é português!

 

Menção para o trabalho de som, muito bom, muito bom, que nos brinda com excelentes misturas (em campo/fora de campo) no início, que depois são motivo para os diálogos finais entre o realizador e director de som, que são mais uma piscadela de olho ao espectador.

 

De referir ainda os inúmeros prémios e críticas que o filme conquistou e que podem ser vistos no sítio da produtora O Som e a Fúria, aqui, e também uma dissertação de mestrado em estudos artísticos apresentada na Universidade de Coimbra por Daniel Filipe da Costa Boto, que pode ser lida aqui.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Óscar Niemeyer (1907-2012)




O meu contacto directo com a obra de Óscar Niemeyer foi no Funchal, primeiro em 2002, depois em 2008. O Hotel Casino do Funchal (1966) é uma obra notável, com uma volumetria impressionante, mas perfeitamente integrado na paisagem, ou melhor, redefinidora da paisagem. O hotel fica entre a Avenida do Infante e o porto marítimo; a avenida é a montra das elites do Estado Novo, as poderosas famílias conservadoras da Madeira e/ou Lisboa construiram ali as suas vivendas, num estilo arquitectónico ao gosto regime, um misto de conservadorismo com traços de um modernismo desactualizado. Hoje, como seria de esperar, as vivendas estão quase todas ocupadas por bancos ou empresas de serviços (o velho neo-liberalismo capitalista a funcionar! Ou a ganância! Ou o "off shore" da Madeira!). A obra de Niemeyer rasgou o horizonte sobre o mar, impondo uma vista obrigatória, a partir das vivendas das elites. Um feito notável, também da família que o apoiou, ao chamar um comunista para redesenhar a paisagem da avenida das elites. [A estátua de Sissi é um pólo de atracção acessório, destinado aos turistas do centro da Europa; todos os dias, alguém (o hotel?) deposita flores frescas na estátua da imperatriz, alimentando uma ideia etérea do imperialismo cor-de-rosa desenhado pelo star system de Hollywood.]
Em 2002, estava no Funchal para a inauguração do terminal de passageiros do Aeroporto Internacional da Madeira (penso que foi a primeira vez que ali aterrou um Boing 747) e o Governo Regional convidou os jornalistas a jantar no Casino. Confesso que não prestei grande atenção à arquitectura, mas ficou a ideia de uma certa decadência por causa do mobiliário gasto, da comida pouco recomendável e das coristas estrangeiras. Em 2008, procurei observar e fotografar o imóvel (com telemóvel), mas escaparam muitos pormenores. Espero voltar. Aparentemente é a única obra de Óscar Niemeyer em Portugal. É pouco, está longe, e reproduz um tempo sócio-político em Portugal. Niemeyer e o seu hotel-casino são um marco indiscutível do autoritarismo português. Da resistência "integrada" ao/no autoritarismo português.

[Act. Jul. 2013: afinal parece que Oscar Niemeyer renegou esta sua obra, atribuindo-a a Viana de Lima. Azar o meu que assim estragou este postal, desmentindo-o até. Curioso também que a impressionante volumetria do edifício não era do agrado do autor brasileiro, por mexer numa paisagem que no seu entender deveria ser protegida. A (breve) explicação sobre a autoria do Casino Hotel da Madeira pode ser encontrada aqui: