sexta-feira, 12 de julho de 2013

A pluralidade na televisão portuguesa e a desonestidade de Pacheco Pereira


Assisti ontem à noite a um programa de discussão política na televisão paga, uma edição especial comemorativa a assinalar mais de duas décadas de existência. O programa é o “Quadratura do Círculo” e passa no canal pago SIC Notícias.


Foi e é anunciado como o mais antigo programa televisivo de debate político, iniciado na década de 1980. Começou como “Flashback”, ainda na rádio, depois passou para o canal SIC, transmitido em sinal aberto, e depois para o cabo, já com o nome “Quadratura do Circulo” (um problema matemático insolúvel), acessível apenas por subscrição paga.

Há uma característica comum a todos estes anos de longevidade: um dos comentadores mantém-se desde a fundação do programa, o professor e historiador José Pacheco Pereira, militante, ex-dirigente e ex-deputado do PSD.


Assisti ao início do programa com curiosidade, já que não sou espectador frequente. Eram convidados, além dos habituais participantes – Carlos Andrade (moderador), Pacheco Pereira, António Lobo Xavier (CDS/PP) e António Costa (PS) – antigos colaboradores. A saber, Nogueira de Brito (CDS/PP), José Magalhães (PS) e Jorge Coelho (PS). Não compareceram os antigos comentadores Miguel Sousa Tavares (jurista, comentador profissional e cronista) e Vasco Pulido Valente (historiador e cronista, ex-deputado do PSD).

Enfastiado com o tom auto-elogioso e saudosista da primeira meia hora de programa, fiquei incomodado quando Pacheco Pereira afirmou que o “Quadratura do Círculo” não visava a representação partidária. Pelo contrário, era um espaço livre de debate sobre política, que não projectava os partidos políticos com assento no Parlamento (cito de memória, não tomei notas).

Inteiramente falso, uma desonestidade de Pacheco Pereira. O ex-dirigente do PSD, que surge semanalmente como uma espécie de “educador para os média” (tem um outro programa na televisão paga, “Ponto Contraponto”), crítico do jornalismo que se produz em Portugal.

O historiador sabe perfeitamente que, na televisão, aquilo que parece é; sabe bem que a representação das personagens do programa “Quadratura do Círculo”, indica precisamente os partidos que têm governado Portugal desde o 25 de Abril de 1974, PSD, PS e CDS/PP, por muito que se diga que essas personagens não falam em nome dos partidos. Os próprios participantes do programa admitiram com a maior das canduras (não será antes desplante?) que muitas vezes não podem defender livremente as suas opiniões políticas, porque vão contra as correntes dos seus partidos, os partidos de que são filiados ou dirigentes.

Ou seja, a projecção actual do programa (como também o fora no passado) coincide intencionalmente (poderia ser de outra forma?) com os partidos do chamado “arco da governabilidade” (chavão desenvolvido por quem exerce o poder político), excluindo representantes do PCP e do BE.

Da mesma forma, no plano simbólico, o programa decorreu no Quartel do Carmo, em Lisboa, o local que marca a queda do governo fascista, no poder até 24 de Abril de 1974. A “Quadratura do Círculo” apropriou-se da imagem do Povo e da sua pluralidade, no apoio que deu ao golpe militar, excluindo mais uma vez as margens, apoderando-se da imagem da democracia conquistada, repartindo-a pelos três partidos representados no ecrã televisivo.


Duas conclusões.

A primeira quanto ao “Quadratura do Círculo”: de todas as opiniões dos afiliados do PSD, PS e CDS/PP, não há lugar, são banidas, as opiniões de representantes do PCP e do BE. Note-se que ambos os partidos têm representação no Parlamento português; o PCP é o partido mais antigo em Portugal (é um dos mais antigos no mundo dos países democráticos), mas é constantemente ostracizado, por razões históricas, pelo processo de construção do imaginário colectivo, mas sobretudo por ser um partido marxista-leninista, o último com representação parlamentar na União Europeia. Ou seja, um leque importante da opinião político-partidária com expressividade assinalável na sociedade portuguesa não tem lugar num programa que se auto-intitula de debate político livre.

A segunda conclusão: a projecção política-ideológica evidenciada no “Quadratura do Círculo” reflecte – na generalidade, uma larga generalidade – o panorama de debate nas televisões portuguesas, com referência para o serviço público de rádio e televisão, que exclui do espaço mediático PCP e BE. Numa outra análise, que não cabe agora aqui, os canais privados e públicos e os respectivos “impérios” mediáticos, excluem sistematicamente as representações políticas das franjas, contribuindo para um estreitamento do debate e da formação de opinião pública, o que, em última análise, é uma forma de manter o poder centrado num conjunto restrito que segue determinadas linhas político-ideológicas; tanto mais que a cúpula desses grupos económicos estão intimamente ligados aos partidos PSD, PS e CDS/PP.




Foto dos presidentes dos grupos proprietários de média. (Da esq. para a dir.) Francisco Pinto Balsemão, um dos fundadores do PSD, ex-primeiro-ministro de uma coligação PSD/CDS, presidente do canal privado SIC onde passa o "Quadratura do Círculo"; Joaquim Pina Moura, ex-deputado do PS, oriundo do PCP, ex-ministro das Finanças de um governo PS, administrador do grupo espanhol Prisa, proprietário do Grupo Media Capital, presidido pelo ex-accionista Miguel Pais do Amaral, com ligações ao CDS/PP, grupo que é propretário do canal privado TVI; Alberto da Ponte, ex-administrador do sector cervejeiro nacional e europeu, presidente da RTP, serviço público de Rádio e Televisão, nomeado pelo actual governo PSD/PP, com a missão de despedir jornalistas e funcionários, diminuindo o mais possível a prestação de serviço público, recorrendo a uma programação populista sem critério.

O programa “Quadratura do Círculo” de ontem foi gravado na véspera, um dia depois da mensagem do Presidente da República, que teve o efeito de aprofundar a crise política portuguesa. Não por acaso, a proposta do chefe de Estado para a crise política excluiu das soluções PCP e BE, partidos com legitimidade democrática e com propostas concretas, que, tal como nos programas televisivos, são afastados do debate mediático, prolongando e acentuando o afunilamento de soluções.

Depois do discurso inicial auto-elogioso e saudosista, os “comentadores” propunham-se discutir a tal proposta do Presidente da República. Mas foram apanhados pela rapidez dos acontecimentos, já que a realização do programa passava em rodapé a informação sobre a reunião do PS que decorria naquela noite: os socialistas aceitavam o diálogo partidário proposto pela Presidência, mas diziam que deviam estar envolvidas “todas as forças políticas com representação parlamentar” (Agência Lusa, através do Expresso On-line), excluindo integrar um governo no actual quadro parlamentar.

Eu desliguei a televisão. Já não tinha mais nada para ver.

Créditos das imagens, por ordem de entrada: banner do programa SIC Notícias, retirado do local próprio; foto de JPP retirada de www.leituras.eu, não assinada; foto da manifestação popular no Largo do Carmo, em 25 de Abril de 1974, não assinada, retirada de www.parlamento.pt; foto de FPB retirada da SIC Notícias, aparentemente assinada pela Agência Lusa; foto de JPM, não assinada, retirada de samuel-cantigueiro.blogspot.com; foto de AP, não assinada, retirada de hipersuper.pt; mira técnica de televisão retirada de ateoriadobigblog.blogspot.com.

sábado, 23 de março de 2013

Óscar Lopes 1917-2013

Óscar Lopes e Virgínia Moura, 26 de Abril de 1974, Porto, no "assalto" à delegação da PIDE/DGS. Pormenor de foto de Bruno Neves obtida através de telemóvel