domingo, 8 de janeiro de 2017

Mário Soares 1924-2017


E pronto morreu Mário Soares. Há várias semanas que os media tradicionais esperavam esta “notícia”, pois tinham lá na prateleira os obituários habituais, os programas especiais (vejam lá que que o serviço público de televisão até passou num sábado à noite o célebre debate televisivo entre Soares e Cunhal, com Álvaro Cunhal a dizer o mítico “olhe que não, olhe que não”!), e até debates sobre a importância da figura política, com confissões e testemunhos pessoais.

Mário Soares é sem dúvida uma figura incontornável da nossa Democracia, mas também da luta antifascista. Merece as honras de Estado, os três dias de luto nacional e o enorme cortejo que se prepara pelas ruas de Lisboa, desde a sua casa até ao Mosteiro dos Jerónimos (ele que era ateu!), até porque é o primeiro Presidente da República falecido desde 1974.

Mas é preciso sair um bocadinho da unanimidade, descer à terra, e o Meios de Produção tem duas ou três coisas para dizer.

Primeiro, a questão da descolonização: como já foi dito aqui, a descolonização foi o que foi e atendendo às circunstâncias correu muito bem. Lamento o ressentimento de gerações de colonos e veteranos da “Guerra do Ultramar” (ou “Guerra de Libertação”), mas era inevitável e justa.

Segundo. A importância de Soares na luta antifascista é um dado maior da nossa História (mas não é único, e há muitos e muitos combatentes do regime de Salazar e Caetano que merecem a mesma homenagem e às vezes até muito mais). Leitura recomendadíssima para se perceber o que era o regime fascista (autoritário, se quiserem) e ditatorial, é a leitura da sua obra “Portugal Amordaçado” (1974).

“Portugal Amordaçado” foi escrito quando Soares se encontrava deportado em S. Tomé e Principe, por ordem de Salazar, e nos primeiros anos do exílio em França, por ordem de Marcelo Caetano. Foi publicado pela primeira vez em França, em francês, em 1972, e republicado em Portugal em outubro de 1974, com o título “Portugal Amordaçado – Depoimento sobre os anos do fascismo”, pela Arcádia. É uma obra de referência sobre a história da resistência ao regime fascista português. É dedicado à companheira Maria de Jesus [Barroso] (1925-2015) e à memória de António Sérgio, Bente de Jesus Caraça, Jaime Cortesão, Manuel Mendes, Maria Isabel Aboim Inglês, Mário de Azevedo Gomes (“mestres de civismo e queridos amigos”). O livro está divido em 15 capítulos e contém um cronologia política da resistência aos autoritarismos desde 1891 até 1974.

Para quem quiser perceber o que era Portugal durante a ditadura, deve lê-lo. Para quem não percebeu ainda, o regime ditatorial português teve resistentes, não durou 48 anos apenas porque ninguém fez nada; muitos lutaram contra o fascismo e a durabilidade explica-se pela obediência/conivência (entre outros fatores internos e externos) das Forças Armadas aos ditadores. E, por isso mesmo, não é por acaso que surge a Revolução Democrática.

E dois mitos desmistificados.

A Fundação Mário Soares é uma instituição de utilidade pública, privada, com um trabalho notável e relevante, independentemente de ter financiamento público. Está aberta à sociedade, aos investigadores e ao público em geral. Não é um sorvedouro de dinheiro público, e tem contribuído notavelmente para a história das ideias políticas, para a História de Portugal e para a conversação da memória.

Mário Soares não pisou a bandeira portuguesa quando estava no exílio, ou não lhe cuspiu ou não lhe pegou fogo. É lamentável que ainda haja muitos portugueses, do seu tempo e outros mais jovens, que não saibam que esse boato (infeliz e pouco inteligente, ora, o homem que lutava contra a ditadura foi queimar ou pisar a bandeira que era a sua… Importa-se de repetir?!) foi lançado pela PIDE e pelos esbirros do regime.




O carisma.
Era uma personagem carismática, quer se queira quer não, quer se goste ou não. Não tenho grandes experiências pessoais com Mário Soares; lembro-me da sua presença, fortíssima, num congresso sobre a democracia e o futuro de Portugal na Europa e no mundo, organizado (vejam lá), por Paulo Rangel (muito jovem e magrinho), na Universidade Católica do Porto. (Na verdade não sei se ele estaria lá, porque não guardo registo desse evento que acompanhei como jornalista, para O Primeiro de Janeiro, mas cito de cor).

Mas destaco uma situação que para mim foi notável e deixou-me de boca aberta (sobretudo porque não estava habituado a ver pessoas assim, isto foi no final da década de 1990, ainda em O Comércio do Porto): acompanhei a visita do Presidente da República Mário Soares a uma instituição do Porto, que não me lembro (teria sido no segundo mandato), que lhe queria entregar uma medalha e fazer um homenagem. Penso que foi ao princípio da tarde (ou teria sido de manhã?) e então ele fica na mesa de honra enquanto lhe fazem discursos e tecem loas. Mas o homem estava a dormir! Cabisbaixo, com a barbela e as bochechas a esconder o colarinho da camisa e o nó da gravata, dormitava enquanto lhe faziam uma homenagem, dirigindo-lhe palavras e às vezes interpelações. Corria um burburinho pela sala e viam-se algumas caras atónitas. Quando chega a sua vez de discursar, têm que o lembrar (acordar?). Demora algum tempo, não se levanta, e começa a discursar de improviso e até a responder a algumas das interpelações que lhe fizeram. Sabia tin-tin-por-tin-tin tudo o que fora dito e não tinha sequer um papel à frente! Arrancou muitos e muitos aplausos. No fim, levantou-se, cumprimentou os da mesa e quis sair, mas meteram-lhe crianças à frente para beijar, e depois uma banda, mas ele queria era ir embora e apressou-se, apressou-se e desapareceu com a sua comitiva, deixando todos de boca aberta, felicíssimos porque ali estivera o Presidente da República. Pareceu depois – e foi-o, de facto – uma visita relâmpago.
E agora algumas zonas sombra.O financiamento do PS e o livro do Rui Mateus (o livro, que saiu do mercado há muito, pode ser encontrado aqui). “Contos Proibidos – Memórias de um PS desconhecido” (1996), foi escrito por Rui Mateus depois de se zangar com Mário Soares , na sequência da revelação do caso de corrupção do Governador de Macau, o socialista Carlos Melancia, a propósito da construção do Aeroporto de Macau. Rui Mateus, que foi o “contabilista” do PS, responsável pelas relações internacionais e fundador do PS, expôs de forma documentada diversos esquemas de corrupção e favorecimento que envolviam o financiamento do partido. É um caso de revelação distante e longínqua que não resultou em nada (na verdade Carlos Melancia foi julgado, mas absolvido, apesar dos corruptores serem condenados e não haver corrompidos!), tal como o caso dos Submarinos de Paulo Portas (ver aqui http://visao.sapo.pt/actualidade/portugal/caso-dos-submarinos-uma-polemica-na-maioridade=f805252 e aqui https://tretas.org/DossierSubmarinos), ou do abate ilegal de Sobreiros (caso Portucale, ver aqui https://tretas.org/CasoPortucale). Destaco apenas alguns escândalos que envolvem partidos portugueses.

Mas a zona sombra mais grave é a sua candidatura à Presidência da República, em 2005. Manuel Alegre, afrontando José Sócrates e o PS (não pedindo licença, pois parecia que não a ia obter), lança-se na corrida à Presidência, ainda antes de Cavaco Silva, que continuava a alimentar os seus habituais tabus, quando já todos sabiam que ia candidatar-se. Surpreendentemente, Sócrates mostra-se despeitado e conspira com o amigo Soares, de forma a lançá-lo nas eleições. Há aqui algo de estranho, muito estranho e inexplicável, ainda que os dois amigos, Soares e Alegre, se tenham reconciliado depois: Então ninguém suspeitaria que, dividindo o eleitorado de esquerda (e o eleitorado do PS), estariam a projetar o inefável Cavaco Silva? Por que razão Soares se candidatou contra Manuel Alegre (diziam os seus estrategos, contra Cavaco), minimizando as hipóteses de vitória de um e de outro ou ainda de um outro qualquer, que não o sr. Silva? O resultado foi conhecido durante uma longa década: Cavaco Silva na Presidência da República (entre 2006 e 2016, dois mandatos). Notável! E desnecessário. Na verdade, não li nenhuma das milhares de páginas que se foram escrevendo sobre a sua biografia política nestes últimos anos. Mas mesmo que as lesse certamente não perceberia.
Termino esta elegia escrevendo que Mário Soares não foi o “Pai da Democracia” (ou “The Father do Portuguese Democracy” – vejam ao que isto chegou!) Apetece dizer que pais... há muitos! São mais que as mães...

Foto a preto e branco:
Por Claude Truong-Ngoc / Wikimedia Commons - cc-by-sa-3.0, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=16475350
Quadro de Júlio Pomar:
Por Fonte, Conteúdo restrito, https://pt.wikipedia.org/w/index.php?curid=5104571
Capa dos livros:
biblioteca particular, capas digitalizadas da web