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quarta-feira, 1 de maio de 2024

50 anos/50 livros – 25 de Abril 1974/2024 - Sindicatos (xiii)

 Sindicatos (em mil palavras)

 

Os sindicatos e as associações de classe são uma das consequências da Revolução Industrial e têm um papel muito importante na regulação e regulamentação dos direitos dos trabalhadores, como contraponto ao poder do patronato e também do Estado que, historicamente, defende primeiramente as empresas e o lucro delas.

 

Nas sociedades avançadas, no norte da Europa, como os neoliberais gostam de evidenciar, os sindicatos têm um papel fundamental na regulação das relações entre o trabalhador e a empresa e entre o trabalhador, a empresa e a sociedade. Os sindicatos têm uma função primordial, na defesa do trabalho com direitos e salários mínimos, e são aceites com toda a naturalidade, como uma das organizações da sociedade que contribuem para a melhoria das condições de vida dos seus sócios e da sociedade no seu conjunto. Em algumas profissões a sindicalização é obrigatória, como acontece nos Estados Unidos, por exemplo.

 

Em Portugal, a situação é bastante diferente e está relacionada com a nossa História, a chegada tardia da Democracia, e a forma como os trabalhadores foram sempre subalternizados perante as empresas, com a ajuda do Estado. De forma muito incipiente, os sindicatos e as associações de classe formaram-se no nosso país, em meados do século XIX, acompanhando as correntes ideológicas que se alastravam por toda a Europa industrializada, como forma de combater o liberalismo e o capitalismo. Os abusos das empresas e do capital tornava impossível as condições de vida do operariado e de outras profissões, nas cidades e no campo.

 

Ganhavam forças as correntes ideológicas socialistas, republicanas, anarquistas e revolucionárias. Em Portugal, o anarco-sindicalismo, moderado, primeiro, revolucionário, depois, era a corrente sindical mais comum, no final da Monarquia e durante os 16 anos da República. Os republicanos combateram duramente os sindicalistas e o movimento operário.

 

A partir de 1912, sempre que havia uma greve, o governo enviava a Guarda Nacional Republicana, às vezes o Exército, para obrigar os grevistas a trabalhar e proteger a fábrica. E, frequentemente, dispersava as concentrações à bastonada e a tiro, prendendo e chegando a matar alguns grevistas. Por isso, quando chegou o Estado Novo, a partir de 1928, o movimento sindical estava enfraquecido. Os trabalhadores sindicalizados eram despedidos e acabavam por emigrar, além de que no final da Grande Guerra de 1914-18, o desemprego e o nível de vida subiram consideravelmente.

 

O Estado Novo tornou a sindicalização obrigatória em 1939, mas nem todos se tornavam sócios dos sindicatos. É que os sindicatos fascistas, designados “sindicatos nacionais”, não tinham poder reivindicativo, as direções destas entidades eram eleitas entre candidatos considerados “idóneos”, e depois ainda tinham de ser homologadas pelo governo. Os sindicatos do Estado Novo tinham-se tornado em sindicatos do regime, corporativos, “falsos sindicatos”, porque o governo negociava as condições laborais com as empresas e depois chamava as direções sindicais para assinar os acordos coletivos.

via https://www.cgtp.pt/

A partir da década de 1960, que também coincide com o início da Guerra Colonial/Libertação, as direções sindicais começaram a ser infiltradas por membros da oposição, muitos deles comunistas. Quando chegou o 25 de Abril de 1974, o movimento sindical aliou-se ao Partido Comunista Português fazendo parte de uma frente revolucionária que esperava uma enorme movimentação popular de forma a instaurar uma sociedade socialista e, por fim, uma “ditadura do proletariado”. No entanto, nas primeiras eleições livres, em 1975, eleições para a Assembleia Constituinte, que tinha a função de escrever a Constituição Democrática, o PCP não foi além de 12,4% dos votos e gorou-se a possibilidade de instaurar um regime socialista em Portugal.
UGT via https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=58426473

Logo a seguir, no mesmo ano, o movimento sindical procurou a unicidade sindical, quer dizer, uma única central sindical que agregasse todos os sindicatos na Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional. Mas o Partido Socialista não deixou e apoiou outra central sindical, a União Geral dos Trabalhadores, dividindo a influência dos sindicatos. Ficámos, pois, com duas centrais sindicais, ambas com assento na Concertação Social, que é o órgão onde se reúnem os patrões, os sindicatos e o governo, para discutirem periodicamente as questões laborais, como a Lei do Trabalho, os acordos coletivos de trabalho (que abrangem todos os trabalhadores de determinado sector, mesmo que não sejam sindicalizados), os aumentos salariais, a melhoria das condições de trabalho, etc.
Movimento dos Coletes Amarelos em Verneuil Grand, França, por Carmelo DG via https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=75945855

Nos últimos anos têm surgido sindicatos que não estão inscritos por nenhuma das centrais sindicais, imitando um movimento internacional e europeu, realizando ações de protesto, muitas vezes anárquicas ou impossíveis de atender, paralisando setores económicos, como já aconteceu em Portugal, na Educação, com as greves dos professores, ou nos transportes, com os condutores de matérias perigosas, ou com os portos, como as greves dos estivadores, entre outros setores e profissões.

 

O que se espera alcançar nos estados democráticos, que são estados liberais e capitalistas, é uma justa e melhor repartição da riqueza, de forma a diminuir as desigualdades e melhorar a vida dos seus cidadãos que são, ou foram, trabalhadores, portanto, contribuíram para a subsistência das empresas e da Segurança Social, e contribuem para relações económicas saudáveis e estáveis.

 

Mas percebe-se bem, e cada vez mais, a influência das ideologias neoliberais e populistas nas nossas sociedades democráticas, quando começam a impor uma novilíngua, um novo vocabulário quando se querem referir ao Trabalho e aos trabalhadores. Chamar colaborador a um trabalhador é, em si, uma declaração de intenções: o colaborador colabora para o lucro do patrão, enquanto o trabalhador trabalha para obter o seu ordenado e com isso manter a empresa lucrativa de forma a manter o seu posto de trabalho. Por isso existe uma lei do trabalho e não uma lei da colaboração. A luta sindical será permanente enquanto as nossas sociedades democráticas estiverem organizadas em função da subsistência das famílias através do Trabalho.

 

PEDRO, Edmundo – 45 anos de luta pela democracia sindical. 18 de janeiro de 1934-18 de janeiro de 1979. Reflexões de um militante. Lisboa: Fundação José Fontana, janeiro de 1979. 1.ª edição 9000 exemplares. "Desta obra foi feita uma tiragem especial de 1000 exemplares autografados pelo autor."


Edmundo Pedro (1918-2018) foi um revolucionário comunista que, desde muito cedo, aos 15 anos, combateu a ditadura fascista e participou em inúmeras ações contra o regime. Esteve preso várias vezes, chegando a ser enviado para o Tarrafal. Nessa altura, a sua militância no PCP foi suspensa por dois anos, por "indisciplina", por ter tentado fugir sem autorização do partido. Conviveu de perto com José de Sousa, Francisco Paula de Oliveira/Pavel e Bento Gonçalves. Defende, neste livro, a unidade sindical, quer dizer, a liberdade de os sócios dos sindicatos escolherem a sua própria tendência sindical, ao contrário do que defendia o PCP e a CGTP, que advogavam a unicidade, ou seja, uma única central sindical que agregasse todos os sindicatos portugueses. "(...) Não é difícil reconhecer que o fator decisivo de influência da CGTP/IN no seio dos trabalhadores (...) reside, essencialmente, na sua poderosa estrutura, que dá a muitos trabalhadores uma ideia, talvez enganadora, da sua força. De facto, o que interessa aos trabalhadores, na sua esmagadora maioria, não são as ideias políticas, muitas vezes ignoradas, dos dirigentes sindicais. Os trabalhadores não vão para os sindicatos por razões políticas. Não se inscrevem para apoiar projetos políticos, sejam eles quais forem. Acorrem aos sindicatos sempre que percebem que estes os defendem, que são uma garantia para a imposição dos seus direitos. Afastam-se, pelo contrário, quando se dão conta que a ação não visa essa finalidade." (p. 139)

 



VILANOVA, João – 1977/78 – Sindicalismo em Portugal. Perspectivas futuras/Pacto social. Lisboa: Assírio e Alvim, 1977. Coleção Forças do Tempo, n.º 4.


Este é um livro muito interessante por diversas razões. Começa logo pela editora, que nos habituámos como uma referência na edição literária, mas aqui, em 77, a editar um livro sobre sindicalismo e muito próximo da CGTP. Todavia, embora pareça um simples "panfleto" da central sindical, é muito mais do que isso porque dá espaço a todas as tendências sindicais daquele tempo, incluindo os "sindicatos de direita", como refere, que são os sindicatos bancários, afetos ao PPD. O livro inclui entrevistas com Joaquim Venâncio, Álvaro Rana, Kalidás Barreto, Arlindo Ribeiro e Emídio Santana. Faz também, em traços gerais, uma curta história da transição dos sindicatos corporativos para o sindicalismo democrático. Mesmo defendendo os interesses da CGTP-IN e certamente patrocinado pela central sindical, apresenta uma variedade de tendências que o torna num estudo importante.

 



DUARTE, José teófilo (desenhos); CASTRIM, Mário (texto) – História da Intersindical, Vol. I. Lisboa: Edições Alavanca, setembro de 1978. 5000 exemplares. 2.ª edição. Coleção Edições Alavanca n.º 9.


Uma singela edição de 12 páginas ilustradas para contar uma versão da história do sindicalismo português, com a chancela da CGTP-IN. Assinam José Teófilo Duarte e Mário Castrim. Uma curiosidade.

 



CARVALHO, Camilo; ANTUNES, J. Cavalheira; FERREIRA, Serafim (coords.) – Sabotagem económica. «Dossier» Banco Espírito Santo. Trabalho coletivo das comissões de delegados sindicais do Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa. Lisboa: Diabril Editora, abril de 1975. 1.ª edição. Coleção Universidade do Povo, política 3. Capa de Dorindo Carvalho. Dedicatória: "A todos os trabalhadores portugueses como mais uma alavanca para o processo revolucionário iniciado com o 25 de Abril de 1974 pelo glorioso movimento das Forças Armadas." Ilustrado.


Livro panfletário e anticapitalista. Faz a denúncia das movimentações financeiras dos próprios administradores do banco, com dados supostamente confidenciais. A tese é que o Banco de Portugal injetou milhões de contos na banca privada, que foram levantados e distribuídos pelos administradores, suas famílias e empresas e retirados do mercado nacional e, em parte, para financiar o golpe reacionário de 11 de março de 1975. É uma publicação típica do PREC (Processo Revolucionário Em Curso). Tem dados relevantes (mas, por verificar) e um capítulo onde os três coordenadores estabelecem um diálogo sobre a situação da banca privada e o seu futuro. A Editora Diabril foi constituída no início de 1975 por Orlando Neves e Serafim Ferreira na forma de sociedade anónima, mas em completo "espírito cooperativo", explicou o  também coordenador deste livro no programa literário da RTP, Com todas as letras, apresentado por Eduardo Prado Coelho.



CUF, Comissão Coordenadora Intercomissões de Trabalhadores do Grupo – O capital monopolista conspira assim!. Lisboa: Seara Nova, novembro 1977. 2.ª edição. capa de Henrique Ruivo.

 

Este livro é um objeto estranho. Trata-se, dizem os autores, da publicação de provas de uma conspiração do grande capital monopolista que pretendia o regresso ao 24 de abril. As "provas" foram encontradas em gabinetes e em arquivos pertencentes aos capitalistas Mello, quando os trabalhadores ocuparam as instalações da E.G.F. – Empresa Geral de Fomento, no edifício sede da CUF (Companhia União Fabril), em 19 de abril de 1975. Na verdade, é muito mais do que isso. Trata-se de planos de preparação de um campanha de marketing político para reagir à vaga de nacionalizações e ocupações de empresas, de forma a garantir o funcionamento da economia e a manutenção das suas empresas, presume-se, num sistema político democrático. É natural que estes empresários, que beneficiavam de um regime monopolista, não quisessem perder tudo, e preparavam uma campanha de negociações com a Junta de Salvação Nacional, com partidos políticos, com comissões de trabalhadores, através de uma associação privada sem fins lucrativos chamada MDE/S - Movimento Dinamizador Empresa /Sociedade. Inclusivamente, diziam que iam lançar medidas de construção de habitação social algo inovadoras, que querem dizer duas coisas: a) existia efetivamente um problema habitacional no Portugal do Estado Novo; b) os detentores do capital monopolista podiam ter contribuído para resolver o problema habitacional, quando beneficiavam desses monopólios, mas nada fizeram e só agora, em pleno PREC, é que se lembraram que deviam atuar. Os documentos revelados são até algo enternecedores: chegam a apresentar uma sondagem sobre as eleições eleitorais para a Assembleia Constituinte, em abril de 1975, em que os resultados estão muito próximos do que de facto aconteceu.

 



 AAVV – O caso dos 17 da Têxtil Manuel Gonçalves. Um documento para a história da luta dos trabalhadores. Porto: edição de autor, junho de 1976. "Trabalho coletivo dos trabalhadores ameaçados de despedimento pela Administração da Têxtil Manuel Gonçalves, S.A.R.L." Dedicatória: "Dedicamos este livro a todos os Trabalhadores Revolucionários que lutam contra a recuperação capitalista".


Trata-se de mais uma obra escrita por trabalhadores anticapitalistas que procuravam combater "os processos que, a partir do Verão de 1975, o grande Capital utilizou para fazer uma recuperação das posições que havia progressivamente perdido após o 25 de Abril de 1974". Durante o Estado Novo, a empresa tinha cerca de 3170 trabalhadores e um volume de negócios de 1 milhão de contos/ano, 70% destinado a exportação. Tinha três unidades fabris na zona de Famalicão e estava entre as dez maiores exportadoras nacionais. Não tinha cantina, refeitórios ou creches. Oferecia más condições de trabalho aos operários, a maioria mulheres. No entanto, tinha um prédio mobilado na Póvoa do Varzim para os quadros superiores passarem férias; tinha uma coutada de caça no Alentejo com 2350 hectares. Os administradores tinham carros luxuosos, um avião e barcos de recreio. Em resumo: era um grupo económico muito rentável, que baseava a sua produção em baixos salários. E então chegou o 25 de Abril de 1974!

 

TEODORO, António – Sobre as qualificações escolares e profissionais dos trabalhadores portugueses. Lisboa: Seara Nova, maio de 1977. 4200 exemplares. Coleção Cadernos Seara Nova.

 

Durante muitos anos António Teodoro foi o rosto dos sindicatos de professores, enquanto secretário-geral da Fenprof – Federação Nacional dos Professores (1983-1994). Em 1977, publicou este pequeno ensaio exploratório onde procurava conhecer as habilitações dos trabalhadores portugueses. O que se sabe desses tempos é que a herança deixada pelo Estado Novo era muito pesada: 1/4 da população analfabeta em 1970, a mais elevada taxa de analfabetismo da Europa. O estudo, aliás, faz uma panorâmica da "política educativa do fascismo" e centra-se bastante na alfabetização da população. Mas as conclusões, não estando comprometidas, são de outro tempo: "Para salvaguardar a independência – dizia o presidente Ho Chi Minh – e fazer do nosso país uma nação forte e próspera, cada vietnamita deve conhecer os seus direitos e deveres, estar apto a participar na edificação do país e, em primeiro lugar, saber ler e escrever na sua língua nacional" (p. 44).

segunda-feira, 1 de maio de 2023

1.º de Maio de 2023! Dia do Colaborador... Perdão! Do Trabalhador!

O almoço do trolha, Júlio Pomar, 1946-1950. Coleção particular, foto da Fundação Calouste Gulbenkian

Cabeçalho do jornal O Sindicalista – Semanário defensor da Classe Trabalhadora. In PORTUGAL Presidência do Conselho de Ministros, Secretaria de Estado da Cultura – 100 anos de anarquismo em Portugal 1887-1987. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1987. Catálogo de exposição; organização: Carlos Abreu

Jovem operário assassinado – Gravura de Dias Coelho, jornal Avante!, n.º 130, novembro de 1961

Jornal Escola Nova, n.º 1, 1924. In PORTUGAL Presidência do Conselho de Ministros, Secretaria de Estado da Cultura – 100 anos de anarquismo em Portugal 1887-1987. Lisboa: Biblioteca Nacional, 1987. Catálogo de exposição; organização: Carlos Abreu




Acção Sindical. Lisboa: Base, 1974. Tradução do espanhol Accion Sindical, adaptação espanhola de PIAZZI, Ugo – Appunti di tecnica sindicale. Roma: Edizioni Del Cristallo, s/d. Apresentação de Fernando Abreu; tradução de Maria Adelaide Rocha; capa de Vitorino Correia Martins. Escreve-se na apresentação que o livro "é já conhecido de alguns activistas sindicais que o leram na versão espanhola, a qual, apesar de proibida e apreendida pela PIDE, circulava clandestinamente, de mão em mão." (p. 3)

Desfile 1.º de Maio de 2011, Porto. Organização da CGTP-IN

Os velhos dos Aliados, desfile do 1.º de Maio de 2011, Porto. Organização da CGTP-IN

terça-feira, 13 de julho de 2021

O twitter tem medo de quê? A propósito de uma Imagem censurada no twitter

Afinal, o twitter censurou o quê? Um abraço amoroso entre um leopardo e um bambi ou outra coisa qualquer? Por exemplo, uma alusão à desigualdade do poder entre o empresário e o trabalhador? A fotografia não tem sexo, não tem sangue, revela um ato... que pode significar muitas coisas, mas pelo que mostra não viola nenhuma regra do twitter. Revela apenas ironia, talvez sarcasmo e algum cinismo. Mas também revela uma realidade política-ideológica que começou por ser combatida massivamente no país que originou o twitter. Políticamente correto? Autoritarismo e reacionarismo? O twitter tem medo de quê? A fotografia chegou-me pelo meu camarada FM (@FilintoM) e de tão gasta, tão usada e provavelmente tão velha, já não tinha já qualidade nenhuma e foi certamente tirada de um qualquer programa sobre a vida selvagem em África, que todos temos vindo a destruir. Já deve ter sido usada e abusada milhares de vezes pela internet com outras tantas legendas diferentes. E depois chega ao meu twitter, que é muito pouco visto e pobrezinho... e aparece um avisozinho a dizer "Nós não podemos te mostrar tudo! Ocultamos automaticamente fotos com possível conteúdo sensível ou impróprio". Resta saber o que é sensível ou impróprio para o twitter e para os censores do twitter: se uma amizade improvável (e falsa, claro!) ou uma legenda certeira que nem um tiro no alvo. 

 

Meios de Produção luta por uma internet livre!

 

Este exemplar foi retirado da internet através de uma busca no google com a foto do twitter
 

After all, what did twitter censor? A loving embrace between a leopard and a bambi or something else? For example, an allusion to the inequality of power between the entrepreneur and the worker? The photograph has no sex, no blood, it reveals an act... which can mean many things, but from what it shows, it doesn't violate any twitter rules. It reveals only irony, sarcasm, some cynicism. But it also reveals a political-ideological reality that began by being massively fought in the country that originated twitter. Politically correct? Authoritarianism and reactionaryism? What is twitter afraid of? The photo came to me from my buddy FM (@FilintoM) and it was so worn, so used and probably so old, it was no longer of any quality and was certainly taken from some program about wildlife in Africa we all have been destroying. It must have been used and reused thousands of times over the internet with so many different subtitles. And then it comes to my twitter, which is very little seen and... a little warning appears saying "We can't show you everything! We automatically hide photos with possible sensitive or inappropriate content". It remains to be seen what is sensitive or inappropriate for twitter and for twitter censors: whether an unlikely friendship or a caption that is as accurate as a shot at the target. 


Meios de Produção fights for a free internet!

(the caption: “You don't need a union because everyone here is a family”)

 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Luta Livre - Sushi era no Japão (2021)

Absolutamente imperdível o novíssimo álbum do novíssimo projeto de Luís Varatojo, Luta Livre (no bandcamp)! Recomendo, para já, "Sushi no Japão" (ainda sem videoclip), que merece ser ouvida muitas vezes. Reconheceríamos Lisboa hoje? Ou aquilo foi só uma geração que passou? E o som? E o som?

 

[Act.: 17/03/2021]: Afinal havia outro!


sexta-feira, 1 de maio de 2020

Covid-19 + 1.º de Maio + Dia do Trabalhador + 2020 = ?

Dia 1 de maio de 2020.

 

Uma situação de pandemia sanitária como aquela que atravessamos agora, não é uma novidade. Nem a forma como lidamos com ela. Se verificarmos os relatos da última grande pandemia, o surto de Gripe Espanhola, que causou em Portugal mais de 50 mil mortos em 1918, percebemos rapidamente que as ferramentas que temos para lidar com a pandemia do novo coronavírus, a Covid-19, em 2020, são as mesmas: lavar as mãos, tapar o rosto e as vias respiratórias e confinamento social. 

estrutura do novo corona vírus disponível online sem indicação de autor, aparentemente da wikipedia

Mas essas medidas, que são medidas que pretendem mitigar a propagação do vírus, sofrem o efeito da globalização, que é um processo que temos vindo a aprofundar, de forma muito desigual, nas últimas décadas, e que se traduzem no fechamento da economia. Ora, num mundo cada vez mais ligado, em que o mercado tende a ser global (ao contrário das relações de trabalho, que se regem por regras localizadas, ao nível de cada Estado ou região), as consequências são catastróficas para as sociedades nos estados liberais. Para impedir o avanço de uma doença altamente contagiosa, que a ciência conhece há pouco mais de seis meses, quase todos os setores económicos são encerrados. 

Um dia normal no Porto, em tempo de confinamento (não será uma foto de arquivo?). BC via tvi24

Mesmo aquelas empresas que se recusam a fechar, verificam que deixaram de ter clientes ou fornecedores. Apenas os Estados, com os seus serviços nacionais de saúde, prosseguem relações económicas com alguns setores estratégicos, como alguma produção e distribuição alimentar. É fácil perceber o que está acontecer às nossas sociedades democratico-liberais: o preço do combustível baixou de tal forma que regressou aos valores de há 20 anos, porque não há quase ninguém a andar de carro e de transportes públicos; não se vende roupa, nem sapatos, nem flores, nem eletrodomésticos; nem casas, nem carros, nem livros, nem canetas, nem bugigangas de plástico na loja dos chinês, que está fechada; não se vai ao restaurante, nem ao quiosque comprar o jornal; não se corta o cabelo, nem arranja as unhas, nem se grava uma tatuagem na pele. 

 

Mas há peixe, carne e legumes frescos; e pão, e pizza no take away; e há internet. Ou seja, não há uma crise na produção, mas no consumo, o que se revela dramático para as nossas sociedades democrático-liberais… e consumistas.

Lisboa e a baixa pombalina em tempos de pandemia. Rafael Marchante via sic noticias em notícia da lusa

A consequência imediata do fechamento da economia é mandar os trabalhadores para casa. Mas como os pequenos empresários não conseguem pagar os impostos, pela manutenção dos postos de trabalho, acabam por despedi-los e encerrar as empresas definitivamente. Recorreu-se na Europa, e em Portugal, à figura do lay-off, que tem permitido enviar os trabalhadores para casa com uma parte do vencimento pago pelo Estado. Mas só algumas empresas recorrem ao lay-off na sua plenitude, porque não estão nas condições previstas pela legislação (por exemplo, não têm o número de trabalhadores mínimos ou excedem esse valor, ou são devedoras ao fisco ou à Segurança Social, etc.), ou porque o processo é muito burocrático e os empresários (ou os seus mandatários) têm dificuldade em obter os comprovativos necessários para recorrer à medida (um circulo vicioso, tendo em conta que os organismos públicos também estão encerrados ou a trabalhar a partir de casa, com acessos condicionados aos servidores do Estado). Por outro lado, a máquina burocrática do Estado é muito lenta e não consegue processar o dinheiro disponibilizado em tempo útil. Os pedidos de lay-off feitos no início de abril vão ser pagos lá para o meio do mês de maio…

 

O resultado do confinamento e do fechamento da economia tem surgido e é o que se esperava. Hoje, em Portugal, dia 1 de Maio de 2020, Dia do Trabalhador, há mais de 380 mil pessoas inscritas no Instituto de Emprego e Formação Profissional (condição obrigatória para receber o subsídio de desemprego; uma média superior a 3 mil inscrições por dia) e mais de 1,2 milhões de trabalhadores em regime de lay-off (a maior parte deles sem receber nada).

Os números podem ser lidos no Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social:

http://www.gep.mtsss.gov.pt/indicadores-covid-19-mtsss

 

Por tudo isto temos um Dia do Trabalhador muito mais triste, sem manifestações, com pouco festejos, e numa agonia (quase) surda, que ainda assim não nos deve afastar dos objetivos de longo prazo dos trabalhadores, que são o trabalho com direitos, salários dignos e iguais entre géneros, melhores condições, menos precariedade, menos tempo para a empresa e mais tempo para as famílias. Uma outra organização do trabalho é o que devemos aspirar no século XXI, o século da globalização e robotização.

Seria muito bom que as corporações que têm dominado a economia nos nossos estados democratico-liberais, corporações monopolistas que não pagam impostos em lado nenhum, fossem quebradas em favor dos Estados, dos trabalhadores e das sociedades. A Amazon, a Google, o Facebook, a Microsoft, Alibaba e muitas outras empresas satélite dominam a economia mundial e continuam a faturar nestes tempos de pandemia.

Vejam o que se passa na Amazon: https://techcrunch.com/2020/04/21/amazon-employees-plan-additional-protests-over-covid-19-working-conditions/

https://techcrunch.com/2020/04/29/workers-prepare-to-strike-may-1-amid-strained-pandemic-working-conditions/

 

Em Portugal, as empresas monopolistas estão no sector da distribuição, pagam baixos salários e esmagam os preços dos produtores, com referência para o grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce) e grupo Sonae (Continente). Repare-se que os lucros das empresas são intocáveis, nesta nossa era de neoliberalismo, melhor dizendo, ultraliberalismo. Pode-se dizer que os Estados democratico-liberais vão salvar, com dinheiro público, as empresas de aviação, porque senão elas vão falir e o desemprego cresce. Mas vejamos outro ponto de vista: os Estados lançam políticas públicas para salvar as empresas de aviação porque ninguém viaja, ou para salvar um modelo de negócio que implica que os aviões estejam sempre no ar, a queimar combustíveis fósseis e a poluir, e a transportar todos para todos os lados.

A TAP e os aviões em terra, no aeroporto de Lisboa. Mário Cruz/Lusa via dinheiro vivo

Os Estados são chamados a salvar as petrolíferas, porque o seu modelo económico implica que estejamos sempre a queimar combustíveis fósseis e agora, que não se viaja, não há espaço para os guardar.

 

Foi assim que os contribuintes salvaram os bancos das falências, entre 2008 e 2012, porque os seus modelos de negócio implicavam estar sempre a vender crédito aos clientes até chegar a altura em que esse papel já não valia nada.

Os banqueiros Ricardo Salgado (BES), Fernando Ulrich (BPI), Faria de Oliveira (CGD) e Carlos Santos Ferreira (BCP), em 2010, depois de uma reunião com o PSD, quando foram assegurar o dinheiro dos contribuintes. José Sena Goulão/Lusa via AbrilAbril

Precisamos de outros modelos de negócios, que não privilegiem o lucro, que tornem a economia sustentável e ecológica, e que garantam trabalho com direitos. Dá para todos, não tem que ser a maioria a ficar com pouco e a minoria a ficar com muito. É preciso lutar contra os trumps e os bolsonaros, contra os erdogans, os putins e os orbans. Contra os netanyhaus.

 

Há uma coisa que aprendemos há 100 anos, quando a Gripe Espanhola grassava pelo nosso país. Todos temos que lavar as mãos, proteger o rosto e as via respiratórias, distanciarmo-nos uns dos outros e esperar que o vírus desapareça, ou que surja uma vacina ou uma cura para a doença. Os números de mortos em Portugal são relativamente baixos porque estamos confinados em casa há quase dois meses. O isolamento parece ter resultado, conforme se esperava. Ainda que fiquemos mais pobres. Não gostaria de viver a experiência dos Estados Unidos, do Brasil ou da Suécia. Nem as hesitações da Inglaterra. O que se passou na Itália e em Espanha?

 

Mas há 100 anos os trabalhadores estavam em greve. E as greves eram violentas. O nível de vida em Portugal era muito baixo, desde a guerra de 1914-1918. À escassez de bens essenciais que se sentiu nessa altura, juntaram-se os efeitos de diversos surtos mortíferos de Gripe Espanhola, surtos de tifo e da sempre presente tuberculose, numa época com um serviço de saúde mínimo (apesar da inauguração de um Hospital no Porto, o Joaquim Urbano, dedicado a doenças infecciosas) e uma crise económica e financeira, que provocou um empobrecimento rápido e acentuado nas populações urbanas. 

Ilustração Portuguesa, II série, n.º 727, 26 janeiro 1920, via hemeroteca de lisboa

O movimento sindical era um movimento radical e libertário, anarco-sindicalista, com muita força nas duas principais cidades, Lisboa e Porto. Os direitos laborais – salário mínimo, horário de trabalho de 8 horas, descanso ao domingo, diminuição do trabalho infantil – tinham sido conquistados a custo há pouco mais de duas décadas e eram sempre furados pelos empresários. Portugal passou da disponibilidade de uma mão de obra sem direitos, quase trabalho escravo, durante o século XIX, para uma regulação mínima, nem sempre conseguida, a partir do século XX. Com a instauração da República, em 1910, os trabalhadores esperavam melhoras, como salários mais altos, mas as suas expectativas foram sucessivamente frustradas, o que fazia aumentar o movimento sindical. E quando os trabalhadores avançavam para a greve, procuravam tomar as empresas, para que estas parassem, para que os patrões não fossem logo a seguir procurar outros trabalhadores para substituir os grevistas. A GNR ou a PSP eram chamadas a intervir, mas estavam sempre do lado dos empresários, dispersando violentamente os sitiados, que por vezes recorriam a atentados bombistas para forçar as suas posições. 


 (Ilustração Portuguesa, II série, n.º 736, 29 março 1920. via hemeroteca de lisboa)

Ilustração Portuguesa, II série, n.º 737, 5 de abril de 1920. via hemeroteca de lisboa

Hoje, dia 1 de Maio de 2020 os trabalhadores assinalam o Dia do Trabalhador. Uma data que começou por ser uma homenagem aos bravos de Chicago, mas é hoje uma homenagem ao papel dos trabalhadores na sociedade democrática, um dia para eles e para as suas famílias. E não podíamos deixar de o assinalar, no meio da pandemia.

O 1.º de Maio de 2020 da CGTP em Lisboa, António Cotrim/Lusa, via sábado

O 1.º de Maio de 2020 da CGTP em Lisboa, António Cotrim/Lusa, via sábado

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Uma explicação breve/A brief explanation

uma explicação breve: no motor de busca o título do blog meios de produção é ilustrado com uma fotografia artística, normalmente retirada online, e que só é possível ver num browser de um computador pessoal (ou seja, não é possível visualizar a imagem do título do blog num telemóvel). até hoje nunca foram acrescentados os créditos das imagens. procuraremos apresentar os créditos das imagens a partir de agora. tentaremos também fazer alguma arqueologia do blog meios de produção e apresentar os créditos de algumas das imagens anteriormente apresentadas. para algumas foram solicitadas autorizações para uso no blog; para outra não.

a brief explanation: in the search engine, the title of the blog meios de produção (means of production) is illustrated with an artistic photograph, usually taken online, that can only be viewed in a browser on a personal computer (ie, the title image cannot be viewed in a mobile phone). until today the credits of the images have never been added. we will endeavor to display image credits from now on. we will also try to do some archeology of the blog meios de produção and present the credits of some of the images previously presented. for some images have been requested authorizations for use on the blog; for others not. 

http://www.bio-architects.com/ taken from ArchDaily

postcard from an exibition, reflexus, oporto

painting from marlene dumas; from a postcard, oporto

from the movie dolce vita, federico fellini; scan from público newspaper

from a photography portfolio; scan from público newspaper, miguel manso

pirelli calendar

postcard from an exibition, reflexus, oporto


postcard from an exibition, reflexus, oporto

director manoel de olliveira, from a poster, serralves, oporto

director manoel de oliveira, from a poster, serralves, oporto

portuguese king leaving lisbon to brazil escaping napoleon troops, xix century painting, from a postcard invitation

meios de produção, autumn, diospireiro
meios de produção, christal palace, oporto

meios de produção, fire

scan from publico newspaper, nuno ferreira santos

pedro magallães, reflexus, from a postcard, oporto

autumn, another try, diospireiro

scan from  publico newspaper

scan from público newspaper

joana vasconcelos, scan from público or expresso newspaper

meios de produção, road to nowhere, costa nova beach, ílhavo

meios de produção, to the ground, autumn, diospireiro leafs

miles to nowhere, scan from a miles davis record
karen knorr, encontros da imagem, 2016