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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Luta Livre - Sushi era no Japão (2021)

Absolutamente imperdível o novíssimo álbum do novíssimo projeto de Luís Varatojo, Luta Livre (no bandcamp)! Recomendo, para já, "Sushi no Japão" (ainda sem videoclip), que merece ser ouvida muitas vezes. Reconheceríamos Lisboa hoje? Ou aquilo foi só uma geração que passou? E o som? E o som?

 

[Act.: 17/03/2021]: Afinal havia outro!


quarta-feira, 9 de março de 2016

Hoje é dia de festa, porque hoje é dia de festa

Hoje é dia de festa! Saiam à rua! Façam barulho! Atirem foguetes! Bebam e comam à nossa saúde, porque hoje é dia de festa. Já o vemos de costas, a mancar e cabisbaixo! Atirem flores pelo ar e rebentem os petardos! Comam e bebam mais. Ele não volta, não voltará. Festejemos, pois, a sua partida, o seu desterro! (Ainda que sejamos nós a pagá-lo)

(Foto Miguel Lopes, Lusa, 5 de Outubro de 2012)

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio (1942-2014)



O Portugal do “fado, futebol e Fátima” terminou hoje com a morte do Eusébio! 
imagem não assinada retirada de desporto.sapo.pt
Nada mais enganador por razões que não vou explicar agora, mas basta vivermos estes anos de chumbo impostos pela troika (Barroso-Lagarde-Merkel/Coelho-Portas-Cavaco), que se caracterizam pela desregulamentação das leis do Trabalho, pela transferência massiva dos recursos do Trabalho para o Capital, pela imposição da perda de soberania económica nacional ou pela destruição do Estado Social, em plena democracia – repito – em plena democracia, para percebermos que o Portugal do “fado, futebol e Fátima” não morreu hoje, está vivo e ataca forte o povo que nele se formou(a) e viveu(e).

O que quero dizer, no fundo, é que o Portugal do “fado, futebol e Fátima” é um Portugal simbólico, criado por uma elite fascista que revitalizou um género musical marginal, aprisionou um jogador excepcional negro e fomentou um culto religioso como forma de subjugar o imaginário colectivo, mantendo sob alçada um povo inculto, atrasado e supersticioso.

A morte do Eusébio chega a estas páginas por duas razões, uma transversal, a outra histórico-antropológica (ou sócio-política).

imagem não assinada retirada de reflexaoportista.pt
Eusébio não é do meu tempo, mas sei que foi um jogador de futebol excepcional. Não existem muitos registos audiovisuais dos seus feitos (o futebol hoje é sobretudo o espectáculo audiovisual), nem conheço ninguém vivo que o tenha visto em campo (na verdade, o meu avô viu-o jogar no Beira-Mar e afirma que era uma sombra do que sabia que ele tinha sido), mas todos conhecemos a sua extraordinária qualidade de atleta, no futebol nacional e internacional.

Porém, Eusébio é muito mais do que isso e serviu muito mais do que o desporto de massas. Eusébio, jogador negro nascido em Moçambique, colónia de Portugal, é um símbolo do fascismo racista do Portugal colonialista. Perguntei hoje, em família, quantos negros conheceram a trabalhar na Administração Pública no Portugal “salazarento”: contam-se pelos dedos de uma mão e, na verdade, de todos os que se lembram, nenhum deles era negro, apenas mestiços!

O Portugal fascista usou Eusébio como bandeira para justificar o colonialismo, para afirmar internacionalmente que Portugal não era racista e que os negros estavam perfeitamente integrados na nossa sociedade. Nada mais falso,como sabemos.

Mas, mais grave que a própria morte de Eusébio, que merece todas as homenagens enquanto atleta, é o infame Presidente da República Portuguesa Cavaco Silva que teve o desplante de surgir hoje na televisão pública a enaltecer a sua figura.

imagem não assinada retirada de tvi.iol

O sentido de prioridade estratégica deste homem, que é oPresidente da República dos portugueses que nele votaram e que é a principalforça de bloqueio político que se impôs ao povo português, é errado, antiquadoe desadequado e moral e politicamente discutível. O inefável algarvio que comanda a política nacional há várias décadas perdeu uma oportunidade para estar calado, para mandar dizer sobre a justa homenagem ao atleta, mas ao surgir em pessoa com a lágrima ao canto do olho demonstra que quer condenar Portugal e os Portugueses à espuma dos dias e não à essência da coisas. E a essência das coisas é aquilo que mais necessitamos nestes anos de chumbo.

imagem não assinada retirada de zerozero.pt, provavelmente da GettyImages
Eusébio merecia o descanso necessário e não o aproveitamento que este político medíocre, em plena democracia, vem dar continuidade.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

The rule of law

Between 1933 and 1974, Portugal followed a polity quite groundbreaking for its time, which enshrined the individual and collective rights, including freedom of expression and association. 

But Portugal was an authoritarian regime, totalitarian trend of single party, which followed all the rituals of the fascist regimes in Europe, introducing the roman salute in political life, youth organisations to support the paramilitary control scheme and public morals.

Portuguese Childhood Parade "Mocidade Portuguesa", Dec 1st 1940; from Fototeca, Palácio Foz, in O Estado Novo, (1994) Fernando Rosas (coord.); José Mattoso (dir.), Editorial Estampa, Lisboa, Vol. VII.
How it was possible to maintain a nearly democratic Constitution and progressively transform the country into a fascist society?
Firstly, through decree-law.

The dictator – Salazar, unlike Hitler and Mussolini, was never elected – was a man of little clarified, given to dark intrigue, conservative catholic, anti-communist and anti-democratic. He ruled the country, which barely knew, tucked away in his office and through what his emissaries told him.

Soon after the promulgation of the political Constitution of Portugal, in March 1933, he began issuing decrees contrary to the vaguely democratic precepts of the basic law prohibiting freedom of expression and association, instituting a political police whose first role was to monitor the population on these same precepts.

Portugal has lived, for more than four decades, a system of appearances, in which the law said that freedom was possible, but then appeared a discreet decree to forbid it. And this petty way of governing was so accepted by the Portuguese, that everyone thought it was normal that Salazar rules everything, even if the law says otherwise. Like it or not, this wraps a country and its people.

Salazar voting in 1942 presidential elections(All elections was forged) in Arquivo «O Século», CPF
The Constitution stated that who named the President of the Council (appointed Salazar) was the President of the Republic. But, in fact, the President of the Council, a position equivalent to the current Prime Minister, was who chose the President of the Republic. The President of the Republic, as the basic law, had the power to dismiss the President of the Council. But, actually, who dismiss the President of the Republic was the President of the Council. The opposite case. 

Marcelo Rebelo de Sousa, eminent professor of law connected with the party winning the legislative elections of 5 June, stated that the Constitution of Estado Novo (New State, as the regime named it self) was a semantics Constitution, as I had said before in Meios de Produção; i.e. rhetoric needed a political model, but the practice showed another distinct model, often contrary to the rhetoric.

With the death of António Salazar in 1970, many thought the regime, now led by Marcelo Caetano, would be different. A vain aspiration and absurd, since an authoritarian regime would be incapable of producing suddenly a democratic regime or civil liberties.

Caetano was limited to semantic issues, changed the name of the political police, for example, introduced freedom of the press (which was under censure since 1926), but at the same time, imposed a State of War, that forbade it (Portugal was fighting liberation movements in its colonies in Africa). 

Was this world of appearances, hypocrisy and meanness that graduated Aníbal Cavaco Silva, who is currently the President of the Portuguese Republic. His nature has long been discussed here in Meios de Produção and it’s not worth going back to what was said.

However, Cavaco Silva – elected to the post of Prime Minister in full democracy – is always in history for having awarded two police policy of Salazar, for services rendered to the nation, and at the same time having refused a survivor's pension to one of the heroes of the Democratic Revolution of 25 April 1974, the change of regime that came to allow his free election. And that nobody takes away for many posthumous tributes that he promotes.

[HERE, in portuguese Parliament you can watch Cavaco Silva swearing the Constitution]

But now Cavaco shows what the Constitution of the Portuguese Republic is, in the best authoritarian regime interpretation. It will be minor trampling, say some, but in minor tinny trampling following another… And we’re back in semantic constitutions!

What is happening? The Article 187 of the Portuguese Constitution stipulates that “the Prime Minister is appointed by the President of the Republic after hearing the parties represented in Parliament, and bearing in mind the election results”. What does the President of the Republic, and always did since the 25 April 1974? Calls the parties with parliamentary representation and then appoints the Prime Minister. 

But Cavaco Silva prepares to do otherwise. Called the first one who will be Prime Minister, the most voted party leader, and has not even thought of calling parties. Reversed the rule of the Constitution!

This issue is no less important if we consider, for example, that in East Timor, a young democracy and that has a Constitution similar to the Portuguese (East Timor was a portuguese colony), in 2007 parliamentary election, the most voted party, without majority, Mari Alkatiri’s FRETILIN, not formed Government, because the President of the Republic, gave the legislature to the second most voted party, Xanana Gusmão’s CNRT, which colligated with another smaller party.

In Portugal, this scenario or another would also be possible, but Cavaco Silva erased it, precisely because the Portuguese Constitution was deliberately trampled on; the Basic Law of the State and from which derives the entire national political and administrative organization was deliberated trampled.

Cavaco Silva said nothing yet but he will make his speech today on 10 June, national holiday, date he used to call the “day of the race” (fascist and xenophobic designation used under authoritarian regime until the 1950s to mark the national holiday; as you undestand Portugal was also a colonial regime). And what will he say to the Portuguese is the primacy of speculative international economics to the basic law.

Cavaco Silva will say that it is more important to the Portuguese that the basic law is outdated because we need urgency to meet an international loan agreement with high interest rates, that will radically transform our lives, impoverishing us, shooting us for a long recession and possibly irreversible.

This is the recipe that Cavaco Silva knows and believes in and that has its origin in his formation in the authoritarian regime: the people can and should be suppressed because they are uneducated and dangerous and what elites do for the people it’s the best for them – deliver all goods and services to private companies because they will produce the best results.

I never realize that the best results were for shareholders or to the people.

[Obviously my contempt for the current President of Portuguese Republic remains alive and well and undisguised – just see what he said in the communication before the elections of 5 June, puts any hair on foot – so I'll shut up indefinitely. Again. I will return when there is news. Or new projects.]

listening unnecessary begging, fela kuti, in the underground spiritual game (1992), original from no buredi (no bread), 1976

terça-feira, 15 de março de 2011

Trabalhadores fazem greve em defesa dos patrões [Actualização 16/mar/2011]


O momento actual é propício à (re)utilização desta foto insólita que tinha publicado aqui. [Acabou por ser uma repostagem, já que apaguei a matrícula do atrelado; o local da ocorrência foi uma rotunda junto ao porto de Aveiro.]

O insólito do momento actual é que os empresários dos transportes em Portugal usam os trabalhadores/camionistas para fazerem “a greve” por eles. O que estamos a assistir é uma “chantagem” dos patrões, que querem combustíveis mais baratos e isenções nas portagens das auto-estradas, para fazerem circular os produtos transportados, já que não conseguem fazer reflectir nos consumidores ou clientes os custos de circulação. Mas em vez de pressionarem directamente os responsáveis pela situação, o poder político, impeliram os “seus” trabalhadores/camionistas à greve e paralisação.

Sem o apoio dos sindicatos do sector, os empresários conseguiram uma mobilização considerável que até já cortou o abastecimento de combustível aos postos de venda; a prolongar-se, a paralisação vai levar ao corte no abastecimento de bens de consumo imediato, aumentando a crise social.

Impressiona ver pela televisão alguns trabalhadores/camionistas a “obrigarem” outros  a parar os camiões, mesmo que estes, por qualquer razão, não o quererem fazer, apedrejando veículos, ameaçando camaradas.

Compreender-se-ia se estivessem a lutar por melhores condições de vida, mas não; os trabalhadores/camionistas estão a lutar pela manutenção dos lucros do patrão. Dizem eles que estão a proteger os postos de trabalho. Pois, pois! Depois do governo ceder – porque vai ceder – vamos ver se os trabalhadores/camionistas vão ganhar alguma coisa, incluindo os seus postos de trabalho. [Actualização 16/Mar/2011: conforme esperava, o Governo acabou por ceder; ver notícia do Público.]

[Impressiona também o jornalismo português que se apressa a titular uma “greve de camionistas” para depois, lá no fundinho do texto dizer que afinal se trata de um protesto de 600 empresas do sector e respectivas associações.]

Uma explicação que se impõe sobre o nosso modelo de desenvolvimento, adoptado nos anos de 1980, quando o actual Presidente da República era o primeiro-ministro: a aposta para o país, absolutamente errada, foi empurrar a circulação de pessoas e bens através do transporte automóvel em vez de se modernizar e incrementar outros meios de transporte mais económicos, ecológicos e energeticamente mais eficientes. E agora pagamos todos por isso: Portugal é completamente dependente da flutuação do preço do petróleo, o que limita o seu desenvolvimento.

domingo, 20 de junho de 2010

A derradeira homenagem

[imagem retirada do expresso on-line]
Enquanto escrevo estas linhas assisto ao funeral, pela RTP, de José Saramago. Serviço público de televisão, directos sucessivos, depois da missa dominical, também em directo. Amanhã continuam com o futebol. Serviço público esquizofrénico, para não dizer péssimo serviço público.

Não é propriamente o funeral do único prémio Nobel da Literatura atribuído a um português que me leva a escrever estas linhas – nem que viva 200 anos terei outra hipótese de assistir à atribuição de um prémio Nobel da Literatura a um português – mas a ausência do Presidente da República, Cavaco Silva, que resolveu não interromper as suas férias nos Açores para assistir à cerimónia.

Cavaco Silva já disse uma vez, certamente mais que uma vez, que é o presidente de todos os portugueses. Ignóbil mentira. Não é, nunca foi, o meu presidente. Não é presidente de muitos portugueses. Não foi certamente o Presidente da República de José Saramago. E demonstra-o. A sua obrigação, enquanto português, enquanto chefe de Estado, era assistir ao funeral do escritor. Era a sua derradeira hipótese de reparar o erro que o seu Governo cometeu, ao menosprezar, em 1992, a importância do escritor e sua obra. (Houve outros erros, muitos erros; em si, Cavaco, é um erro histórico.)

Mas não. Cavaco Silva não quis estar ao lado de Mário Soares, de Ramalho Eanes, de Eduardo Lourenço, de Pilar e Violante, Guilherme de Oliveira Martins, Jerónimo de Sousa, José Sousa. Não podia, pois claro. Retrógrado, inculto, algo reaccionário, falso moralista, representa o pior do legado salazarista, que continua por aí, transfigurado em democracia. Não digo que seja fascista, ou protofascista, mas é seguramente um produto do salazarismo: tiques de autoritário, disfarçados de boa moral e bons costumes (leia-se catolicismo português, disfarçado de fatalismo dogmático), baseados nos princípios da Constituição de 1933, que estudou na escola e que nunca lhe saíram da memória.

Cavaco Silva, que diz que é preciso exportar a marca Portugal, recusa-se a apoiar o melhor que essa marca oferece. Ao invés, defende um mundo mais fechado, pleno de ordem artificial e imposta, bem ao jeito dos seus mentores, aqueles que governaram o país antes do 25 de Abril de 1974.

O caixão de José Saramago saiu hoje, dos Paços do Concelho de Lisboa, coberto com a bandeira de Portugal. Cavaco Silva prepara, hoje, a sua recandidatura à Presidência da República. Nunca será reeleito.

[canta camarada canta, fernando lopes-graça, gravações inéditas, edições avante!, 2006]

[ACTUALIZAÇÃO: Cavaco Silva explicou por que é que não foi ao funeral de Saramago, depois de o governo ter decretado dois dias de luto nacional. Segundo a RTP, Cavaco disse que "o que um chefe de Estado deve fazer é diferente daquilo que deve ser feito pelos amigos ou deve ser feito pelos conhecidos. Devo dizer que nunca tive o privilégio na minha vida, se me recordo, de alguma vez conhecer ou encontrar José Saramago". Mas disse mais: "todos os portugueses sabem que desde quinta feira à noite estou nos Açores, em S. Miguel, cumprindo uma promessa que fiz há muito tempo a toda a minha família, filhos e netos, de lhes mostrar as belezas desta região". Ora, o chefe de Estado, que diz ser o presidente de todos os portugueses, hoje, foi apenas o presidente da sua família. Tem a certeza da sua razão, sr. Silva? 
Acrescento também que a segunda figura da República, o presidente do Parlamento, açoriano e também de férias nos Açores, não foi ao funeral de José Saramago. 
Aproveito para dizer que um outro ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, esteve presente. Um deles, Mário Soares, que também não conhecia o escritor português Prémio Nobel da Literatura, e que o desprezava politicamente, conforme afirmou (o que era recíproco, aliás), esteve presente. Talvez se perceba assim a dimensão de uns e outros. Faço votos, sr. Silva, que os seus netos conheçam estas polémicas. Não os prive de nada sr. Silva, especialmente de conhecimento e sabedoria.] 

[Declaração final: este meu azedume deixa-me mal, sendo ou não justificado (eu acho que é ou não estivesse a perorar sobre a morte de um escritor, que por acaso foi o maior embaixador da Língua Portuguesa desde o final do século XX).  A cultura e a língua são os maiores produtos de exportação que temos, mas isso nunca conseguirá entender Cavaco Silva, que defende isso mesmo, a exportação do que é  nacional. Por isso paro por aqui. Pausa. Não mais voltarei a falar de Cavaco Silva, até ele se tornar uma contradição em si mesmo. Ah! Mas querem saber de onde vem este desprezo todo! Da minha adolescência e pós-adolescência na década do "cavaquismo", em que de repente nos tornámos ricos à custa dos fundos europeus, do dinheiro dos contribuintes da CEE. Foi por aqui que ganhei, às minhas custas, consciência política e de cidadania, que não tinha em casa. Impressionou-me muito perceber que o dinheiro que os ricos da Europa nos enviavam servia para gastar em propriedade pessoal/privada, em bens de ostentação e em negócios e esquemas fraudulentos, muitas vezes apoiados pela classe política e pela administração pública., mas sempre com a finalidade de enriquecimento pessoal e familiar. Impressionou-me muito que o líder de tudo isto (deste não-desenvolvimento) fosse um homem autista, acossado, que se recusava a olhar para o país e a ver o que se fazia com todos esses milhões de contos. Paradoxalmente, era nele que se depositava a confiança.  Ele não teve (nem tem) capacidade de olhar para o país, para as pessoas que o fazem. E isto marcou-me muito. Tive ocasião de comprar os dois volumes autobiográficos de Cavaco Silva, que retratam este período (Foram uma verdadeira pechincha, 6 euros os dois, um deles custou 1,5 euros). Confirmaram apenas o meu sentimento e o erro que foi a sua governação.
Por isso, chega de Sr. Silva. Não voltarei a falar dele, nem bem nem mal. Até um dia...]
que me perdoem os brasileiros e os irmãos africanos por fazer da língua portuguesa um exclusivo português

domingo, 23 de maio de 2010

Fábrica da Areosa

A Fábrica da Areosa era a fábrica de Manuel Pinto de Azevedo. Foi registada em filme, em 1927, e está no YouTube. O empresário aparece na segunda parte do filme (ao minuto 7’45’’). É um documento notável sobre a indústria e os meios de produção do sector têxtil do início do século XX.





Manuel Pinto de Azevedo (1874-1959) era um milionário, um dos homens mais ricos de Portugal. Os seus dados biográficos estão na Wikipedia (que não é uma referência bibliográfica, note-se).

Republicano, conformou-se com o regime fascista de Salazar, que protegeu sempre os grandes empresários nacionais, o que lhe permitiu manter o jornal «O Primeiro de Janeiro», que comprou em 1923. O jornal foi sempre crítico com o novo regime autoritário, especialmente porque mostrava o que se passava no mundo; foi talvez o único jornal nacional a abrir com a secção Internacional. Uma escolha que, já sob a direcção do seu filho, Manuel Pinto de Azevedo Júnior (1905-1978), se revelou fundamental, no período da II Guerra Mundial, para cimentar a sua posição no mercado.

Manuel Pinto de Azevedo Júnior era um diletante, apreciador e coleccionador de arte e cultura, que protegia sempre os seus jornalistas com problemas com a polícia política (a imprensa vivia sob um regime censório desde 1926). Com a sua morte – não teve descendentes – o império Pinto de Azevedo desmoronou-se: os familiares foram alienando as fábricas (entre elas a Efanor, na Senhora da Hora, que é reestruturada pela Sonae de Belmiro de Azevedo), património e participações noutras empresas, afastando-se dos negócios.


A Fábrica da Areosa (Azevedo, Soares e Companhia Lda.) comprou, na década de 1920, a Companhia Fabril e Industrial de Soure, Coimbra, na aldeia de Paleão, implementando modernas técnicas de gestão. A este respeito ver o texto de Jorge Custódio, sobre a máquina a vapor de Soure, que está a enfeitar o interior do Centro Comercial Norteshopping.

O centro comercial, aliás, foi construído em terrenos da Efanor. De notar que o empresário concentrava em si e na mulher a gestão das fábricas, conforme nota o estudo de Maria da Luz Braga Sampaio e Cláudia Monteiro, do Museu da Indústria, naquilo que nomeiam como “Usos de um Sistema de Informação Familiar/Empresarial”.


Importa referir que Manuel Pinto de Azevedo era um homem atento às inovações tecnológicas e compreendia perfeitamente os princípios do taylorismo (produção em massa). Como tinha sido operário, certamente se preocupou com as condições de vida dos seus empregados e da protecção aos meios de produção (menos acidentes e boas condições de trabalho é igual a melhor e mais produção). Daí o patrocínio (não identificado) a um corpo de bombeiros nas imediações da Fábrica da Areosa, que se vê em acção no filme, e a construção de um bairro para os seus funcionários, que ainda hoje existe e pode ser visitado. Trata-se do Bairro da Areosa, com entrada pela Estrada da Circunvalação, junto à Rotunda da A3, por detrás do Instituto Politécnico do Porto.

(Bairro da Areosa, Porto)

A fábrica mais importante de Manuel Pinto de Azevedo era a Fábrica de Tecidos Aliança, no Bonfim, na actual Rua António Carneiro, onde ainda existe, embora abandonada [17/Maio/2011 – Correcção: as instalações da fábrica estão a ser recuperadas e servir de sede a várias empresas.]. A freguesia do Bonfim, tal como Cedofeita, e de alguma forma Campanhã e Paranhos, constituíam a chamada cintura industrial do Porto, na segunda metade do séc. XIX. A população estava concentrada no velho burgo medieval (nas freguesias da Sé, Vitória, Santo Ildefonso e Miragaia), mas assistia à proliferação rápida das «ilhas». As «ilhas» não eram mais que favelas – aglomerados de casas improvisadas, estendidas por um ou mais quarteirões ou becos, ligadas por um emaranhado de estreitas ruas, que normalmente se dirigiam a uma pequena “praça” ou largo interior, onde se situava uma igreja ou associação cultural e recreativa ou de trabalhadores [ou pequeno comércio. Muitos empresários fomentavam o aparecimento de "ilhas" junto das suas fábricas, como forma de garantir mão de obra barata, permanentemente disponível; por exemplo, as mulheres e crianças podiam trabalhar à noite nas linhas de produção, auferindo salários ainda mais baixos que os homens]. O anarco-sindicalismo no Porto provém destes ambientes. As «ilhas» não tinham quaisquer condições de higiene e eram focos permanentes de epidemias, com altos índices de mortalidade [a água canalizada e o saneamento é inexistente nesta época].
(Antiga Fábrica de Tecidos Aliança, na Rua António Carneiro, no Bonfim)

Com a necessidade em erradicar as «ilhas», ainda no século XIX, os proprietários burgueses, que mantinham casas de vários andares e quintal, começaram a «levá-las» para as traseiras das suas habitações, o que lhes garantia um considerável capital em rendas.


A questão era que estas casas, também elas «ilhas», pelas suas péssimas condições de higiene, eram sempre procuradas para habitação, já que a cidade do Porto estava transformada num viveiro, numa colmeia fervilhante, alimentada pelas sucessivas vagas de migrantes do interior rural, que procuravam trabalho nas fábricas têxteis, os maiores empregadores, ou nos mecanismos de emigração que todos os anos lançava mão de obra portuguesa nas Américas, sobretudo Brasil.

Como se vivia (vivem) nas «ilhas» das traseiras das habitações: breve reportagem do Jornal de Notícias, na Ilha de S. Vítor (retirada de TheUrbanEarth.wordpress.com).



[Note-se que as «colmeias» descritas nos parágrafos anteriores são ainda motivo de controvérsia entre historiadores, sobretudo lançam confusão sobre o que entendemos sobre «ilhas». Gaspar Martins Pereira é dos poucos historiadores a descrever as ilhas antes de 1956, as tais «colmeias», já que a ideia que prevalece sobre elas é referente ao estudo «lisboeta» de Manuel C. Teixeira (1996), que as descreve como «tiras» nas traseiras de habitações que, na verdade, foram as únicas que prevaleceram depois do Plano de Melhoramentos 1956-1966. Ver também a este respeito http://meiosdeproducao.blogspot.com/2009/08/panoramas-do-jornalismo-portugues-na.html]. [Em bom rigor, a designação «colmeias» é usada ainda no século XIX para descrever a sobrelotação e azáfama dos "prédios esguios" do Barredo/Ribeira. Em cada andar destes prédios podiam viver várias famílias numerosas.]


A economia exportadora portuense assentava nas indústrias têxtil e conserveira, e na exportação de gado vivo e vinhos. Destino? Inglaterra, pois claro! Sucede que na viragem dos séculos XIX e XX, os ingleses desenvolveram uma importante cadeia de frio, que veio acabar com as importações de gado, e reataram relações com os franceses, voltando a comprar os seus vinhos. As exportações portuenses começaram a cair. Com a implementação do Estado Novo, em 1933, a economia portuguesa sofre transformações definitivas e fecha-se ao mundo (com a natural excepção da economia de guerra, que permitiu vendas de matéria prima aos dois lados da guerra). Salazar privilegiava os grandes lucros dos empresários, que o apoiavam, claro, face aos baixos salários de trabalhadores e operários.


No Porto, as condições de vida dos habitantes, sobretudo e mais uma vez, da classe operária, dos trabalhadores e pequenos comerciantes, só passou a estar no mapa das preocupações do poder político a partir de 1956, com o Plano de Melhoramentos (1956-1966), que veio acabar com as «ilhas» na sua formulação inicial (as «colmeias» instaladas em becos ou quarteirões quase impenetráveis e insalubres). Os funcionários públicos, se não se insurgissem contra o regime (ou fossem suspeitos de se insurgir contra o regime, «ser da situação» ou «ser contra a situação»), auferiam salários bem mais elevados que o proletariado.

Mas, nesta altura, já as indústrias têxteis estavam fora do Porto, instalavam-se no Norte, sobretudo no Vale do Ave, em busca de água (para os processos de tinturaria) e de mão de obra numerosa e ainda mais barata. Sabe-se o que aconteceu a essas indústrias: em decadência desde o início do século XX, tiveram um novo fôlego nos tempos do “Cavaquismo” (década de 1985-1995), com a entrada dos fundos comunitários (que na maior parte dos casos foram desbaratados em consumo pessoal), e acabaram por desaparecer. É verdade que outras houve que foram modernizadas e subsistiram, mas acabaram por se transferir para países onde a mão de obra ainda é mais barata, como alguns países do Leste Europeu, Marrocos, Turquia, Argélia, Índia e China. De qualquer forma, o seu número não é significativo face à quantidade e variedade de fábricas que existiram entre o Porto e o Vale do Ave e Sousa.

(Fábrica de Ribeiro Guimarães & Salazar, Pedome, Famalicão, fundada em 1890; foto retirada de http://ecfamalic.blogspot.com/)

O filme da Fábrica da Areosa foi produzido por «Gloria Film» e foi certamente uma encomenda de Manuel Pinto de Azevedo ou do filho. Deverá ter tido exibição comercial, na série Indústria Portuguesa de Algodão, – o Porto, antes do regime de Salazar, detinha a mais importante indústria cinematográfica do país – mas não está listado no «Prontuário do Cinema Português 1896-1989», de José de Matos-Cruz (Edição da Cinemateca Portuguesa, 1989).


(A exibição de imagens da Fábrica da Areosa, de 1927, deve-se ao ZOrdZ e amigos, dali da zona de Águas Santas.) [17/Maio/2011 – Actualização: As instalações da Fábrica da Areosa ainda existem, ao lado de um dos pólos do Instituto Português de Oncologia]

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Comprei há dias num hipermercado. Custou um euro. Havia dois, trouxe os dois. Um é para oferecer.

"Serviços excepcionais e relevantes prestados ao País"

Os termos são estes: “Serviços excepcionais e relevantes prestados ao País”.

[Lembre-se bem deles, senhor Presidente!]

A história resume-se assim: Em 1988, o capitão Salgueiro Maia pediu ao governo presidido por Cavaco Silva uma pensão por “Serviços excepcionais e relevantes prestados ao País”, pela sua participação no golpe de Estado que levou à instauração do regime democrático em Portugal. O pedido recebeu parecer positivo por parte do conselho consultivo da Procuradoria Geral da República, depois do Supremo Tribunal Militar ter declarado que não era competente para analisar o caso. O pedido foi enviado para o governo e nada. Silêncio. Nunca deu resposta.

Na altura, Salgueiro Maia estava a passar dificuldades por lhe ter sido diagnosticado um cancro. Só em 1992 é que se soube por que é que o governo de Cavaco Silva não concedeu a pensão: porque tinha concedido a pensão por “Serviços excepcionais e relevantes prestados ao País” a dois inspectores da PIDE (a polícia política do Estado fascista português, que torturava e assassinava portugueses). Porque é paga pelos contribuintes, é justo lembrar os nomes dos fascistas inspectores da PIDE que ficaram com a pensão por “Serviços excepcionais e relevantes prestados ao País”: António Bernardo e Óscar Cardoso. Um deles (não sei qual) disparou sobre a multidão que se juntou na Rua António Maria Cardoso (sede da PIDE, em Lisboa), no dia 25 de Abril de 1974. Na altura dos disparos, Salgueiro Maia estava no Largo do Carmo a evitar que se dessem tiros sobre a multidão ou sobre o que restava do Governo fascista. Salgueiro Maia morreu nesse mesmo ano de 1992, a 4 de Junho.

Cavaco Silva, o homem que gostava de fascistas e de lhes dar pensões por “Serviços excepcionais e relevantes prestados ao País” agora é Presidente da República Portuguesa. E ontem, no feriado consagrado ao Dia de Portugal (uma invenção do Estado fascista), foi depositar uma coroa de flores junto à estátua de Salgueiro Maia, em Santarém, cidade de onde era natural o homem que conduziu no terreno uma revolução sem disparar tiros sobre pessoas.

Cavaco Silva merece uma grande vaia!

[Salgueiro Maia não merece qualquer referência nos dois volumes da Autobiografia política de Cavaco. Reli alguns parágrafos sobre a sua relação com Mário Soares e com a comunicação social e a RTP, que ele sempre recusou alguma vez ter “governamentalizado”. Comparando com a “governamentalização” hoje da RTP, acredito em Cavaco. E também acredito no “terrorismo institucional” que lhe fazia Mário Soares, conforme descreve. Mas a ingenuidade não impede de lhe mandar uma valente vaia. E ainda assim, Cavaco teve a humildade de enfrentar este pequeno episódio histórico.]

Foto do Presidente da República retirada do site da Presidência da República (não assinada); Foto de Salgueiro Maia retirada do blogue Fórum do Viriato, sem créditos, mas certamente retirada de outro lado qualquer.


[ouvindo a formiga no carreiro, josé afonso, venham mais cinco, 1973]

sábado, 6 de dezembro de 2008

Capitulo XXIX (ou C ou CL ou M ou...) Sabe a quem pertencem as frases?





"Todos têm a minha confiança, estão acima de qualquer suspeita!"

"Porreiro, pá!"

"Está tudo bem, tudo a funcionar normalmente"
"Não, não sei de nada!"



"Não, nunca ouvi falar em nada disso"

"Todo o sistema financeiro está a funcionar normalmente"



[ouvindo manic depression, nguyên lê, celebrating jimi hendrix purple, 2003]

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Pois, pois!

O Presidente da República ficou triste com as imagens dos tiroteios entre ciganos e africanos na Quinta da Fonte, em Loures. Pois, pois! Cavaco Silva espera que não se desenvolvam guetos étnicos em Portugal. Pois, pois!