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quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Assista à morte lenta de um rio! Jacintos no rio Vouga (parte II)

 

E agora um desafio: o rio Vouga asfixia e morre lentamente à frente dos nossos olhos. O que fazer? 

 

Quem passa na ponte de Cacia (EN 109) – e milhares passam por ela todos os dias! – não pode fingir que não vê nada. E o que vê? Vê que a praga de jacintos-d’água tomou conta do rio. E agora? Vamos deixar que o rio morra? Podemos fazer alguma coisa? 

 

Quando o manto de jacintos-d’água cobre toda a superfície de um rio, como se vê no vídeo, que foi captado em Angeja, junto ao Parque do Areal, as espécies que vivem na água morrem todas porque não conseguem respirar; morrem os peixes que vivem ali; os que vão desovar a montante, não conseguem passar e morrem ali ou desovam onde podem e os seus ovos acabam por asfixiar ou ser comidos por outras espécies a que normalmente estavam imunes; acontece o mesmo com as enguias, com as lampreias; ou com as espécies de flora indígena que ficam sem espaço para se reproduzir, porque toda a superfície do rio está invadida pelos jacintos; ou com as lontras, que deixam de ter alimento e acabam por morrer ou procurar outros cursos de água; ou com muitas aves, que se alimentavam do peixe do rio e agora deixam de ter alimento e têm que procurar outros lugares…

 

Quando dermos conta, já não há nada no rio…

 


O que fazer? Há uma universidade pública em Aveiro [https://www.ua.pt/pt/curso/484] que tem um curso muito afamado dedicado ao Ambiente. Será que eles ensinam os jovens engenheiros do Ambiente a fazer alguma coisa perante atentados ambientais? Ou ensinam apenas que estas pragas de espécies invasoras matam tudo à sua volta? Podiam ensinar a fazer alguma coisa, por exemplo, o que fazer num caso como este, em que vemos um rio a morrer lentamente. 

 

Segundo o Decreto-lei n.º 565/99, de 21 dezembro, que regula a introdução de espécies invasoras, as entidades responsáveis pela fiscalização, instrução de processos e decisão sobre que fazer cabe ao ICNF, Inspecção-Geral do Ambiente, direcções regionais do ambiente, direcções regionais de agricultura, Direcção-Geral das Florestas, Direcção-Geral de Veterinária, Direcção-Geral das Pescas e Aquicultura, Instituto de Investigação das Pescas e do Mar, Guarda Nacional Republicana e demais autoridades policiais (esta lei já deve ter sido atualizada, porque as coimas ainda estão em escudos, mas não sou especialista). Está-se mesmo a ver, não é? Com tantas competências repartidas, quem é que podemos alertar, como se ainda ninguém tivesse visto? Todos?

 


O mais fácil, pelas suas funções, é a GNR e o SEPNA - Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente. Sendo uma força policial, tem um sistema relativamente simples para se apresentar uma queixa. Ok, feito. A queixa foi aceite e aguardamos pelas consequências. 

 

E o ICNF - Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas? Puff! Não tenho o dia todo para procurar uma página online para deixar uma queixa… Descobri, no entanto, que o site do ICNF está em reformulação (há anos?) e convive com dois sistemas distintos, um modernaço que não serve para nada e outro antigo que já não fornece formulários; e então se quisermos fazer uma queixa sobre Ambiente, o ICNF manda-nos para… a GNR!

 


Quanto à Inspeção geral do Ambiente, aparentemente não existe; existe uma coisa chamada de inspeção ambiental pertencente à IGAMAOT, a sigla de Inspeção-geral dos Ministérios do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia e da Agricultura e do Mar, portanto, junta competências de vários ministérios. Deve funcionar muito bem… Bom, mas lá encontrámos um formulário online para deixarmos uma queixa ou uma reclamação: feito, com fotografia, coordenadas e tudo! A IGAMAOT é um órgão com funções de polícia criminal, mas não sei se gostam muito de sair dos gabinetes, porque a maior parte das suas competências é de auto-fiscalização e promoção de estratégias de prevenção e defesa ambiental. E a praga dos Jacintos é um crime sem criminoso! Mas a verdade é que pode atuar junto das autoridades regionais e instá-las a agir, pois isso faz parte das suas competências. Uma das funções da IGAMAOT é “assegurar a gestão e consolidação dos sistemas de análise de risco de cariz ambiental, como ferramenta de planeamento e apoio da sua atividade inspetiva”. Onde estão esses sistemas de análise e por que não são tornados públicos? Estão no site da IGAMAOT? Ah, pois! [Veja se encontra: https://www.igamaot.gov.pt/quem-somos/mensagem-do-inspetor-geral/]


Vejam bem, há poucas soluções neste momento. Aquilo que tem sido feito ao longo dos últimos anos, onde a praga dos jacintos-d’água tem sido cada vez mais visível, é… nada! Sim, nada! A estratégia é esperar que venha muita chuva, esperar que a barragem a montante, de Ribeiradio, em Paradela do Vouga (entregue a privados, claro!), abra as comportas e os jacintos sejam empurrados para o mar. Melhor dizendo, para a Ria de Aveiro, onde a salinidade das águas se encarrega de acabar com a planta. A outra solução é cara e demorada: abrir um concurso público para contratar uma empresa que leve uma barca ou draga para o rio e comece a recolher a planta e depois destruí-la. Até o concurso público estar concluído pode já não haver jacintos à vista… 

 

É verdade que se podia recorrer a meios e fundos próprios, da Administração Pública ou da Administração Regional (CCDRC, por exemplo), fundos de emergência. Mas isso nunca irá acontecer, porque uma situação como esta nunca fará parte das prioridades destas instituições e se investissem dinheiro a fazer essas limpezas para o rio Vouga, tinham também que fazer para o Águeda, para o Mondego, para o Lis, para muitos outros. É claro que quem pensa assim é míope, vê muito mal, pois, se a grande atividade económica que o centro do país tem vindo a promover é o turismo, depois tentem explicar aos turistas que os rios estão mortos porque nada fizemos para os salvar.

 


E agora o que fazer? Uma parte já está: as autoridades públicas têm conhecimento desta situação porque foram avisadas. E depois? Não tenho resposta ou não quero dá-la. Mas suspeito que vamos continuar a assistir à morte lenta do rio Vouga. 

 

Lembram-se que existe uma coisa chamada Região de Aveiro, que andou a distribuir uns cartazes didáticos com os animaizinhos que vivem na Ria e nos rios que ali vão desaguar? Ainda vão mudar os cartazes para: “As espécies que HABITARAM neste ecossistema.”

 

Veja como estava o rio Vouga em 2019 e veja como está agora, em 2021: 

Rio Vouga em Angeja, 2019; foto meiosdeproducao.blogspot.com.

Rio Vouga, em Angeja, 2021; foto meiosdeproducao.blogspot.com

Veja o que se disse em 2019:

https://meiosdeproducao.blogspot.com/2019/11/originario-da-amazonia-e-introduzido-em.html

terça-feira, 13 de julho de 2021

O twitter tem medo de quê? A propósito de uma Imagem censurada no twitter

Afinal, o twitter censurou o quê? Um abraço amoroso entre um leopardo e um bambi ou outra coisa qualquer? Por exemplo, uma alusão à desigualdade do poder entre o empresário e o trabalhador? A fotografia não tem sexo, não tem sangue, revela um ato... que pode significar muitas coisas, mas pelo que mostra não viola nenhuma regra do twitter. Revela apenas ironia, talvez sarcasmo e algum cinismo. Mas também revela uma realidade política-ideológica que começou por ser combatida massivamente no país que originou o twitter. Políticamente correto? Autoritarismo e reacionarismo? O twitter tem medo de quê? A fotografia chegou-me pelo meu camarada FM (@FilintoM) e de tão gasta, tão usada e provavelmente tão velha, já não tinha já qualidade nenhuma e foi certamente tirada de um qualquer programa sobre a vida selvagem em África, que todos temos vindo a destruir. Já deve ter sido usada e abusada milhares de vezes pela internet com outras tantas legendas diferentes. E depois chega ao meu twitter, que é muito pouco visto e pobrezinho... e aparece um avisozinho a dizer "Nós não podemos te mostrar tudo! Ocultamos automaticamente fotos com possível conteúdo sensível ou impróprio". Resta saber o que é sensível ou impróprio para o twitter e para os censores do twitter: se uma amizade improvável (e falsa, claro!) ou uma legenda certeira que nem um tiro no alvo. 

 

Meios de Produção luta por uma internet livre!

 

Este exemplar foi retirado da internet através de uma busca no google com a foto do twitter
 

After all, what did twitter censor? A loving embrace between a leopard and a bambi or something else? For example, an allusion to the inequality of power between the entrepreneur and the worker? The photograph has no sex, no blood, it reveals an act... which can mean many things, but from what it shows, it doesn't violate any twitter rules. It reveals only irony, sarcasm, some cynicism. But it also reveals a political-ideological reality that began by being massively fought in the country that originated twitter. Politically correct? Authoritarianism and reactionaryism? What is twitter afraid of? The photo came to me from my buddy FM (@FilintoM) and it was so worn, so used and probably so old, it was no longer of any quality and was certainly taken from some program about wildlife in Africa we all have been destroying. It must have been used and reused thousands of times over the internet with so many different subtitles. And then it comes to my twitter, which is very little seen and... a little warning appears saying "We can't show you everything! We automatically hide photos with possible sensitive or inappropriate content". It remains to be seen what is sensitive or inappropriate for twitter and for twitter censors: whether an unlikely friendship or a caption that is as accurate as a shot at the target. 


Meios de Produção fights for a free internet!

(the caption: “You don't need a union because everyone here is a family”)

 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Pia fininho, senão levas no focinho! II (EDP SUCKS!)

“Não vamos por aí!”

            Fiquei de pagar uma factura da EDP, mas esqueci-me, deixei passar o prazo em mais de cinco dias. Azar. Peguei no papel e lá fui eu à Loja do Cidadão. Não conheço mais nenhum posto de pagamento de facturas em atraso, esses agentes que não se sabe bem onde estão, as pay shops, como agora se intitulam, fazendo o serviço que competia aos balcões das empresas. Servem para carregar o passe de autocarro, as portagens das auto-estradas que não deviam ter portagens, carregar o telemóvel e, pelos vistos, até servem café!
            Mas antes passei nos Correios (CTT) porque tinha que enviar uma carta e perguntei se ali podia pagar a factura em atraso.
            – “Às vezes dá, deixe-me ver a factura”, disse o funcionário, prestável. Mas já não dava, já tinha passado uma semana desde a data limite. Explicou-me o funcionário dos CTT que agora podia recorrer aos agentes autorizados, às papelarias, avisando-me logo que aquela do outro lado da rua – onde se pode carregar o passe, o telemóvel e pagar portagens – não permitia o pagamento.
            – “Na Loja do Cidadão, então?”, perguntei eu. – “Ou então na Loja do Cidadão”, respondeu o funcionário.
            E lá fui eu à Loja do Cidadão, dirigindo-me à paragem do autocarro. A viagem não foi longa. Lá chegado, depois de subir a escada rolante e sorrir para a câmara de vigilância apontada a todos os que ali passam, procurei no mapa da entrada o balcão da EDP, que ficava no outro extremo da Loja.
            Percorri os corredores reparando que nem estavam muito cheios. Praticamente só o balcão da Segurança Social é que tinha fila. Interessante: os balcões para pagamento estão praticamente vazios; os balcões para recebimento estão bem cheios.

            Será que isso reflecte Portugal como um país onde todos querem viver à conta do Estado, ou não há emprego para as dezenas de pessoas e famílias que desesperam por trabalho e rendimentos do trabalho? No início do século XXI, os políticos de direita afirmam taxativamente que ninguém quer trabalhar; muitas pessoas, pouco esclarecidas, dizem a mesma coisa. O que uns e outros se recusam a ouvir ou a reconhecer, é que os empregadores oferecem salários baixíssimos, para mais de 40 horas por semana (o que impede a procura de melhor emprego e é ilegal, sem pagamento de horas extraordinárias) e parte desses salários são pagos de forma não declarada às Finanças e Segurança Social, o que impede os trabalhadores de auferirem uma série de direitos. Outros empregadores oferecem salários baixíssimos a troco de recibo verde, o que significa que até 40 por cento do que se recebe tem que ir obrigatoriamente para a Segurança Social. Este panorama devia fazer reflectir muitas cabeças bem pensantes, até porque muitos desses empregos indiferenciados vão para jovens licenciados, altamente qualificados, que um mercado de trabalho como o nosso não consegue absorver. E depois, muitos desses jovens licenciados ou mestres sujeitam-se a trabalhar em condições miseráveis nessas empresas, com a esperança de conseguir melhorar a sua situação, o que nunca sucederá. Estamos numa época em que um licenciado, se tiver sorte, consegue trabalhar na caixa de um supermercado, auferindo o salário mínimo, trabalhando mais de 40 horas por semana.

             Mas vamos ao balcão da EDP.
        Lá o encontrei, só com duas pessoas à minha frente, ainda no corredor da Loja do Cidadão, junto a um pequeno balcão como agora se vêem nos bancos. Procurei a senha de atendimento, mas não encontrei. Perguntei à jovem, bonita, que estava de pé a dar indicações aos clientes.
            – “Não temos senha, sou eu que atendo”, respondeu. Estranhei. Esperei um pouco. Os funcionários, todos jovens e bonitos, estavam muito bem vestidos, com uns fatinhos cinza clarinho. Lá dentro, vários terminais vazios, talvez dez, e um grupo de quatro jovens raparigas amontoadas num único terminal conversando em voz baixa.
            Entretanto, é atendido uma pessoa à minha frente e comecei a ouvir a conversa, qualquer coisa do tipo: – “…Tem depois aqui a máquina, mas só funciona com dinheiro e só com quantia certa…”
            Tentava perceber o que se dizia, quando um jovem de cabelo claro, bem aparado, me chamou, sentado desde o seu terminal, quase de costas para o grupo de raparigas. Expliquei-lhe que deixei passar o prazo da factura da EDP e que queria liquidá-la. Respondeu-me:
            – “Aqui não fazemos pagamentos, mas tem lá fora na esquina o Café Pião que processa os nossos pagamentos. Aqui só fazemos contratos”. Fiquei incrédulo. Então tenho que ir ao café, um estabelecimento que vende café, para pagar uma factura da luz?
            – “Não vamos por aí”, dizia entre dentes o funcionário. Então como é que posso liquidar a factura sem ir ao café? O jovem, contrariado, lá explicou que tinha ali a máquina onde podia fazer o pagamento, mas só em dinheiro e quantia certa.
            – “Dinheiro certo?”, questionava, desanimado. E haveria outra forma?
         – “Posso fazer uma nova emissão da factura, se ainda não recebeu o aviso de falta de pagamento, com um novo código para pagar no multibanco”, explicou, quase sem se perceber.
            – “Então é isso que quero”, respondi. – “Pode sentar-se”, disse.
            Comentei com o jovem funcionário que não fazia sentido enviar-me para o café quando me desloquei expressamente ao balcão da EDP para efectuar um pagamento.
            – “Não vamos por aí. Pode escrever uma cartinha e dizer o que tem a dizer”, avançou, sem olhar para mim. Insisti que não fazia muito sentido, afinal eu sou o consumidor e o acesso aos serviços, mesmo liquidações fora de prazo, deve ser facultado e facilitado aos consumidores. Enquanto ele continuava a digitar o teclado, comentei sobre o grupo de funcionárias, desocupadas, que continuavam a conversar baixinho. Tentei perguntar se eram estagiárias.
            – “Não vamos por aí”, voltou o jovem funcionário, sem olhar para mim, impedindo-me de continuar, falando em simultâneo.
            Aquele “não vamos por aí” estava a irritar-me solenemente.
        – “São as ordens que temos, e nós só temos que cumprir as ordens, se quiser pode escrever uma cartinha a expor as suas razões. Só estou a tentar resolver o seu problema”, terminou, sem olhar para mim.
            Descansei um pouco. Afinal, o jovem de cabelo esbranquiçado, bem aparado, com o seu elegante fatinho cinzento, estava a prestar-me um favor: liquidar uma factura da EDP atrasada, sem ter que ir ao Café Pião. Tentei meter conversa:
            – “Não podemos aceitar tudo o que nos dizem. Percebo o ponto de vista da empresa, facilitar o vosso trabalho, melhorando a imagem da empresa, levando as filas dos pagamentos para fora da Loja do Cidadão. Mas…”. Voltou a interromper-me com aquele “não vamos por aí”.
            Desta vez impus-me:
           – “Percebo que esteja mal disposto, afinal andamos todos muito mal dispostos…” Voltou a interromper, sem olhar para mim.
         – “Está enganado, estou muito bem disposto, estou muito bem disposto. Estou só a tentar resolver o seu problema”.
            Calei-me. Entretanto, de uma porta ao fundo da loja, saiu outro funcionário, talvez o gerente, em mangas de camisa, dirigindo-se ao pequeno balcão que estava atrás de mim, socorrendo a jovem bonita que estava a deixar amontoar clientes no corredor da Loja do Cidadão. Ficaram os dois de pé a dizer que os pagamentos de facturas da EDP eram no Café Pião.
            Estava verdadeiramente irritado. A minha vontade era esmurrar o jovem à minha frente da próxima vez que ele dissesse “não vamos por aí”.
            Podia fazer outra coisa, queixar-me do atendimento, pedir o livro de reclamações. Mas isso não adiantaria nada: não tinha testemunhas, e estava contra o jovem elegante, a bela balconista, o gerente e as quatro estagiárias ou alternadeiras que se amontoavam no fundo da dependência. O livro de reclamações, um direito do consumidor, pouco serve para situações deste género, porque tem que se fazer prova do relato.
           Finalmente, o funcionário estendeu o braço sobre a impressora que estava ao seu lado. E assim ficou durante mais de 30 segundos. Era como se estivesse a dizer que estávamos perto do fim, já não tínhamos que continuar este frente a frente. E lá saiu o papel, quase em silêncio. Estendeu-mo, finalmente mirando-me nos olhos:
            – “Agora já pode fazer o pagamento no multibanco, já não precisa de ir ao café”.
           Olhei para ele e desisti.
            – “Então, agradeço e boa tarde”
            – “Boa tarde”, respondeu.
          Sai dali bem rápido. Desci as escadas rolantes, virei à esquerda, dei alguns passos, entrei no primeiro multibanco e fiz o pagamento.
Fotomontagem sobre publicidade da EDP, com o presidente da empresa; retirada de coagret.wordpress.com, Coordenadora de Afectad@s Pelas Grandes Barragens e Transvases – Secção Portuguesa
             Continuei irritado. Tudo bem, já passou. Então um puto, certamente licenciado por uma universidade portuguesa, que se vira para mim e que diz que não há nada a fazer, só temos que aceitar ordens e cumpri-las e é assim que deve ser, mesmo que o procedimento seja absurdo… É este o mundo que ele quer e é este o mundo em que ele vive. Para ele é indiferente viver em democracia, em liberdade, ou sob um regime fascista. Isso não tem importância, ele só tem é que ter um (baixo) salário e viver. É alguém que não pode esperar muito mais. Vive e viverá sempre num manto de mesquinhez, aspirando uma promoção que nunca chegará, procurando tecer intrigas com as colegas, de forma a nunca ser ultrapassado.
            Podia fazer considerações sobre a sua sexualidade, e como isso condicionaria a sua forma de pensar, pela leitura superficial que fiz do jovem funcionário, mas isso não interessa, porque ele não deixaria de ser o que é: um simples lacaio ao dispor das chefias, capatazes e da grande empresa, refém de um mercado de trabalho precário, servindo de mão-de-obra barata numa empresa que opera em regime de monopólio. Entristece ver que são estes os jovens individualistas que os portugueses conseguem formar. Nada de novo, neste mundo ocidental, neoliberalista; vamos assistindo à emergência do fascismo social, que lentamente ajudamos a construir, como alerta Boaventura Sousa Santos.

            A empresa, a EDP…
        A empresa continua a dar lucros astronómicos aos accionistas ou não funcionasse em regime de monopólio de Estado, por muito que tentem dizer que estamos num mercado aberto chamado Mibel. Pois, pois, eu gostava de ter outro fornecedor de electricidade, como é que isso é possível? Não é! Experimente mudar de fornecedora de electricidade e depois diga qualquer coisa. Mas veja bem, o empréstimo que a troika FMI/BCE/CE nos quer conceder, eufemisticamente apelidado pela comunicação social portuguesa de “ajuda externa”, impõe a alienação da golden share que o Estado ainda detém na EDP, abrindo o lote de accionistas ao mundo, aos especuladores mundiais que apenas têm no horizonte o lucro. E quando os novos accionistas aumentarem o preço da electricidade e começarem a despedir os seus funcionários para maximizar o lucro, o jovem elegante do “não vamos por aí”, vai mesmo, e até poderá ser dos primeiros a iniciar as pilhagens, quando não houver dinheiro para comer. Porque é essa a resposta que ele tem para tudo isto.

quarta-feira, 25 de março de 2009

O que é que se passa na Biblioteca Pública Municipal do Porto?

A Câmara do Porto sucks! Rui Rio sucks! Então não é que há um mês a única fotocopiadora da Biblioteca Pública Municipal do Porto avariou e ainda não foi arranjada! A Biblioteca Pública Municipal do Porto é uma das mais importantes bibliotecas de língua portuguesa no mundo, é um depósito de mais de três séculos de história em língua portuguesa, é uma biblioteca com depósito legal (recebe todas as publicações editadas no país), mas só tem uma fotocopiadora de acesso público. E está avariada! E quando vai ser arranjada a fotocopiadora? Ninguém sabe. Os funcionários pedem desculpa e dizem que a peça tem que vir de fora (mas parece que não sabem que hoje o que vem de fora vem muito mais rápido, vejam lá que a encomenda de uma peça até pode ser feita pela internet, ou mesmo por telefone!); outros funcionários, fazendo jus àquela imagem que muitos têm dos funcionários públicos, até ficam indignados quando alguém mostra surpresa por a fotocopiadora estar avariado há um mês (enquanto isso vão tendo dias calmos, na galhofa, apesar do local, preenchendo uma ficha electrónica a cada duas horas, nesse infinito processo de digitalização das fichas dos arquivos).

E então? O que dizer? Que a cultura e os arquivos não interessam a ninguém? Não interessam ao presidente da câmara e a este executivo, isso é certo. Basta ver a politica de aquisições para a sala de acesso público: zero, zero, zero! Não há livros novos na sala de acesso público da Biblioteca Pública Municipal do Porto! Não há nem haverá com este executivo municipal. E a biblioteca irmã, a de Almeida Garrett, a mesma coisa, o que há, há, e lá se vai compondo com um ou dois livros por mês, mas só obras escolhidas, tipo "Profecia Celestina"!

Entretanto, investigadores, estudantes, historiadores, curiosos, municipes, professores, jornalistas... Que se lixem, são escumalha, não interessam! Pensarão o energúmeno do Rui Rio e seus acólitos. Por que razão não é substituída uma peça numa fotocopiadora da Biblioteca Pública Municipal do Porto? Não há dinheiro? Tem que se fazer um concurso público? Alguém se esqueceu de dar ordem para arranjar a máquina?

O principal responsável político por isto é Rui Rio, quer queiram quer não. Só um contabilista energúmeno como é Rui Rio é que poderia pensar que isso não tem importância nenhuma. Pense, senhor presidente, pense, senhor presidente. E aja, de uma só vez, aja!

(quando é que estes energúmenos vão embora?)

ACT.: já lá foi colocado o avisozinho, discreto, a dizer que a única fotocopiadora da Biblioteca Pública Municipal do Porto está a funcionar. Desde o dia 2 de Abril. (5 Abril 2009)


[ouvindo revolution action, atari teenage riot, to dead for me ep, 1999]

domingo, 7 de dezembro de 2008

O que é que andei a ver no Cinema [ou balanço e balancete de 2008, annus horribilis]

Vou apresentar uma lista do que mais relevante para mim aconteceu este ano, ao nível cultural. Sim, sim, estou rendido às listas, ao best of, aos balanços; parafraseando Pessoa, todas as listas do melhor do ano são ridículas/ não seriam ridículas se não fossem listas do melhor do ano…


Eu acho que os portugueses, com essa terrível tendência para o saudosismo e medo do futuro, têm que fazer listas do melhor do ano, para se lembrarem do passado. Pois bem, este ano apresento a minha, o meu balanço e balancete. Cultura, cultura, só isso.


[javier bardem no papel de anton chigurg em «no contry for old men»]


Comecemos então pelo Cinema: 2008 foi um ano péssimo para mim. Esperei por Janeiro para ver o multi-premiado «No Country for Old Men» (2007), dos Irmãos Cohen. A experiência foi boa e má. Não tenho dúvidas que o filme está na categoria «excelente», mas…


A sala que escolhi para o ver é péssima: Eu já sabia disso, mas quis ver o filme ali, nos cinemas do Shopping Cidade do Porto.


Mas o ecrã estava todo sujo, a insonorização da sala é má (ouve-se o filme ao lado), o sistema de som tem muitas falhas e já não tem a qualidade de outrora, o ingresso é caro, as cadeiras estão estragadas e são desconfortáveis, o ar condicionado é ruidoso e pouco eficaz…


Todas as receitas para estragar o ambiente. Eu já sabia disso tudo, mas quis ver o filme ali. Porquê? Porque são os cinemas do Paulo Branco, de quem eu sou um seguidor. Graças a este exibidor/distribuidor/produtor há cinema europeu no Porto. E se ele não possuísse estas quatro antiquadas salas no Porto [e agora o pequeno estúdio do Teatro do Campo Alegre] não havia cinema europeu no Porto. E eu sabia também que ele estava (está) com problemas financeiros e, mesmo reconhecendo a falta de qualidade das salas, quis contribuir com qualquer coisa para que os cinemas não fechassem. Esse risco é real. 2009 pode até ser o ano em que Paulo Branco vai embora do Porto. Espero que não, espero que seja o ano em que ele renove as salas e volte a ter muito público [interessante a entrevista de Paulo Branco à Pública de 7 de Dezembro de 2008, sem link].


[gerardo burmester]


Faço uma sugestão ao Paulo Branco: porque não vender os quadros do Gerardo Burmester [será que são dele, ou já os vendeu?] e investir o dinheiro na renovação das salas, reforçar a programação europeia, fazer uma parceria com a futura extensão da Cinemateca Portuguesa no Porto, reforçar a parceria com o Instituto Franco Português, Instituto Goethe, Instituto Italiano, etc.? Fazer uma extensão do Estoril Film Festival, no Porto?


O pior estava para vir. Regressa absorto do filme, decidido a revê-lo, não por que não compreendesse o filme, mas porque não o usufrui na plenitude, e Pumba!, Crash!, Trash! Fzsssssssss!....


[«crash», de david cronenberg]


Pois tive um acidente de carro. Alguém se espetou contra mim, estragou-me o carro todo. Não tive culpa! Era um cruzamento e eu tinha a prioridade e vinha devagar. A senhora que se espetou contra mim é que não vinha nada devagar e por pouco não me mandava para o hospital.


Depois, já se sabe, o costume: mecânico, seguradora, pedir por favor, muito favorzinho, suplicar, que a minha seguradora me pague o arranjo do carro – a que estavam obrigados, aliás. [Posso-vos dizer que a OK Teleseguro Grupo Caixa Geral de Depósitos Sucks!, como aliás qualquer seguradora; para receber o nosso dinheirinho são os melhores, atenciosos, simpáticos, e etc.; para pagar, assobiam para o lado. Típico. Seguradoras e bancos Sucks!].


Com isto perdi quase três meses e fiquei traumatizado. Não mais fui ao cinema neste ano de 2008. Perdi «Angel», de François Ozon, que aponto como o melhor realizador europeu da actualidade, perdi o ciclo integral de Manuel de Oliveira, em Serralves, e sou capaz de ter perdido mais outras coisas, mas nada que me cativasse especial atenção [deixei passar o Ciclo de Cinema Francês, o Ciclo de Cinema Italiano, «A Turma», de Laurent Cantet]. Tenho ideia que 2008 não foi um ano muito interessante no cinema, mas posso estar enganado. [De notar que os dois filmes que citei para o ano de 2008 são… de 2007! Será que estou atrasado?]


[Regarde la Mer]


Mas atenção, vi uma pérola na televisão! [Lá está, se não fosse a televisão e sua função formativa e divulgadora...] Tenho que registar e devo registar o visionamento desta média-metragem (52 minutos) e posso dizer que foi um dos filmes mais violentos que vi. E foi por mero caso, liguei a televisão em horas impossíveis e começou a dar um filme, que me cativou logo pela qualidade da fotografia. A história foi-se adensando e já não consegui sair da frente do ecrã. Até descobrir que era um filme de… François Ozon! Em concreto, chama-se «Regarde la Mer» (1997).


[cassandra magrath]


Registo também outro filme, australiano, um thriller, que dividiu muito a crítica quando saiu para circuito comercial [não sei se passou em Portugal]. Eu sou dos que gosta do filme. E faço menção disso. Viu-o, where else?, na televisão, este ano. Acho que na TVI, em horas impróprias, claro! Chama-se «Wolf Creek» [realizado e escrito por Greg Mclean] e é de 2005. É apresentado como filme de terror, mas na verdade é um thriller, é realista e não tem monstros ou fantasmas ou outras coisas do género. Diz-se que é baseado em factos reais [o próprio filme faz referência a isso] mas não é verdade. Aquilo que é verdade, é facto, é que desaparecem cerca de 9000 pessoas por ano na Austrália. E cerca de 90 por cento voltam a aparecer noutro canto qualquer da Austrália, vivos e de boa saúde.


Concordo que o Mick Taylor é uma das construções mais violentas (e realistas) que vi nos últimos anos em filmes. É um serial killer protagonizado por John Jarratt. Fiquei fã de Cassandra Magrath. Filme recomendado para quem gosta do género. Ou de filmes sobre serial killers.


Já agora, uma referencia cinéfila. John Jarratt entrou no filme «Picnic at Hanging Rock» (1975), um filme de Peter Weir, antes de se mudar para os States. Não o vi no cinema, vi-o na televisão [na RTP2, há muitos anos, antes das privadas, quando a RTP2 era o verdadeiro canal de referência] e foi dos filmes que mais me impressionou, no campo do thriller. Quase todo filmado em exteriores [tal como «Wolf Creek»], conta o mistério de duas crianças que desapareceram num piquenique em Hanging Rock. Filme de época, a acção desenrola-se em 1900.


[the proposition]


Filme de época, também australiano, e quase todo filmado em exteriores é «The Proposition» (2005) de John Hillcoat, escrito por Nick Cave, com música de Nick Cave e Warren Ellis (violinista). Bastante violento, a acção desenrola-se no farwest australiano em 1880 [farwest no sentido faroeste de índios e caubóis, no caso aborigenes autralianos e caubóis]. O filme chegou cá em 2007, altura em que o vi [devia estar fora desta lista]. As referências históricas são surpreendentes! Só neste ano de 2008 o parlamento e o primeiro-ministro australianos resolveram pedir desculpa aos aborígenes australianos por lhes ter separado gerações inteiras de famílias, por lhes ter proibido o direito à propriedade privada. Notem bem: aborígenes australianos, indígenas da Austrália, estavam lá antes de chegarem os outros, há 65 mil anos, mas estavam proibidos de ser donos de terras!


Mas, chega, chega de referências. [E chega de Austrália. 2008 foi o meu ano australiano!] Como vêem, foi pobrezinho o meu ano cinematográfico.


ACTUALIZAÇÃO a 11 de Dezembro, dia do nascimento de Manoel de Oliveira: o que perdi em 2008 e me esqueci de referir:


O Capacete Dourado, Jorge Cramez


Entre os dedos, de Tiago Guedes e Frederico Serra


Mal nascida, de João Canijo


Aquele querido mês de Agosto, de Miguel Gomes


a curta China, China de João Pedro Rodrigues


AAAHHHH!! Mas vi na televisão (duas vezes, RTP2) o ROCKUMENTÁRIO, de Sandra Castiço, sobre esses inefáveis BUNNYRANCH (são os maiores!)


BUNNYRANCH - IN THE LAND OF THE POOR (MUSIC VIDEO) from Zed Filmes on Vimeo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Site Meter sucks!

Site Meter sucks! Pensava eu ontem, já à procura de um novo contador de páginas. Migrei as minhas contas para o novo site meter e o resultado foi miserável. Era complicado de perceber o tráfego e nem sequer mantinha as mesmas funcionalidades que deram fama e proveito ao site meter. Mas eis senão quando: tudo voltou à forma original! Parece que receberam tantas queixas em tão pouco espaço de tempo que desistiram da nova apresentação. Pois eu estou muito bem assim, antiquado mas muito prático. Já agora, o principal candidato para o lugar do site meter era o google analytics.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Pingo a pingo, Jerónimo vai preenchendo o bingo

Juro que esta é verdade! Certo dia, numa destas tardes de Agosto, estava num Pingo Doce da baixa, a fazer horas (dadas as circunstâncias da altura, era o melhor local e a água era a mais barata) e deu-me uma incontrolável vontade de mictar. Nunca tinha ido a uma casa de banho do Pingo Doce, mas lá pedi a chave e dirigi-me à casinha. Abri a porta e fui direito à sanita. Quando acabei, refresquei-me e voltei-me para a porta de saída quando dou conta de uma folha A4 na parede. Pensei que era um aviso qualquer, um regulamento de utilização… Mas não! Era este alerta que vos deixo! Esclarecedor. Alarmante. Inquietante. Mas muito verdadeiro. E só não sabe o que é isto quem está do outro lado, ou trabalha para uma multinacional (que não seja japonesa!).



(carregue nas imagens para ver maior)


[ouvindo all you fascists bound to lose, billy bragg & the blokes, 1999]

[esta versão de all you fascists… surgiu apenas no álbum promocional you can call me cupcake /billy bragg and the blokes mermaid avenue tour. os the blokes era a banda que acompanhava bragg ao vivo. a versão de estúdio the all you fascists…, mais lenta e mais rockeira, surgiu em parceria com os wilco no álbum mermaid avenue volume ii, em 2000. mas bragg tem outras versões do tema e com outras bandas, como os klezmatics, por exemplo. all you fascists bound to lose é um clássico da música popular dos estados unidos da américa, da autoria de woody guthrie, escrita em 1942.]

All You Fascists Are Bound To Lose Lyrics