Constituição da República
As Forças Armadas Portuguesas representam o poder de soberania do Estado e têm a capacidade de atribuir e manter o poder político nas instituições próprias, sejam elas de que tipo forem. Isso mesmo é verificável através da História, quando realizaram o golpe de Estado de 28 de maio de 1926, instaurando uma ditadura militar; quando garantiram a permanência de uma ditadura fascista, liderada por um conservador católico, durante 48 anos; ou quando depuseram essa mesma ditadura, no dia 25 de abril de 1974.
O que fazer a seguir com o poder político, devem ter perguntado os militares, cujo principal objetivo seria acabar com a guerra nas colónias, uma guerra de guerrilha de baixa intensidade, que não estava a correr nada bem.

Junta de Salvação Nacional (25/04/1974-15/05/1974) via wikipedia

Desde a Revolução do 25 de Abril, até à eleição para a Assembleia Constituinte passou um ano. Um período muito longo, mas de tal forma agitado e intenso que pareceu mais curto. Precisamente, a agitação desses tempos deveu-se, em parte, às lutas internas entre os militares que não tinham uma ideia precisa de como exercer o poder e como o moldar para o futuro do país. Houve golpes de direita reacionária, com apoio militar; houve respostas da esquerda política, com apoio militar; e seguiu-se um caminho, mais ou menos velado e tácito, mais ou menos compreendido pela população inculta, de prosseguir para uma revolução socialista, na direção de uma sociedade sem classes, liderada por uma aliança entre o Povo e o MFA – Movimento das Forças Armadas.

Cartaz de João Abel Manta via parlamento.pt

Os militares da Revolução tinham prometido entregar o poder político aos partidos, que, entretanto, se foram formando e alinhando. O resultado das eleições para Assembleia Constituinte trouxe a primeira surpresa: os partidos moderados, entre o socialismo e a social democracia, ganharam as eleições, reunindo o maior número de deputados, enquanto as forças progressistas de esquerda mostraram não ter tanta capacidade de influência junto das massas populares, como demonstravam no seio das Forças Armadas.
O resultado dos trabalhos da Assembleia Constituinte, a Constituição da República Portuguesa, votada e aprovada no dia 2 de abril de 1976, veio demonstrar isso mesmo. É um texto de compromisso entre uma via democrática pluralista, que defende a economia de mercado, capitalista, e uma via que defende um Estado socialista, com controlo dos meios de produção, através de uma economia planificada. Ambas as vias em confronto garantem os direitos individuais e o pluralismo democrático.
Esta luta política ficou demonstrada no preâmbulo da Constituição. Vejamos:
“A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista.” Esta assunção é errada. A resistência estava limitada a pequenos grupos políticos e o denominador comum era o conformismo, até porque os portugueses tinham os direitos políticos diminuídos desde 1926. Por exemplo, a informação era censurada desde 1926; as mulheres, por regra, nunca tinham tido direitos políticos. Acredito que os “sentimentos profundos” mencionados devem querer referir-se ao apoio popular no golpe de Estado.

Bicha para votar na eleição da Constituinte (25/04/1975) - foto DN via Museu do Aljube

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