quarta-feira, 30 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

Mega-postal – A "Guerra Colonial" portuguesa II – Música

E agora, música… [ou “Esboço de guião para programa de rádio nunca emitido”]

Portugal, desde 1945, revelava-se uma sociedade conservadora, pobre, iletrada, em que as elites, bastante ricas e possidentes, estavam comprometidas com o regime por laços de conveniência que favoreciam a sua sobrevivência. Determinadas profissões mantinham estatutos sociais que por si só lhes concediam benefícios e privilégios. Mas o mais notável é o seu isolamento face ao mundo exterior. Viajar para o estrangeiro requeria autorização da polícia política; razão por que muitos emigrantes foram "a salto" para França (outra das razões, não esqueçamos, era a fuga ao serviço militar que, quase invariavelmente, canalizava os jovens magalas para a guerra “nas províncias ultramarinas”). Abafados por uma censura feroz que, de tão velha – começara em 1926 –, condicionava o entendimento e crescimento de todas as gerações do Estado Novo; gerações que não conheciam mais que as “velhas glórias” do passado, dos Descobrimentos, que o ensino da história de Portugal e do mundo apregoava para justificar um jugo cada vez mais insustentável. 

(Obra de Cruzeiro Seixas, sem título, 1970; imagem retirada de ofuncionáriocansado.blogspot.com)

O Estado Novo moldou a realidade histórica e patrimonial aos seus intentos, abafando qualquer espírito crítico ou científico [com as devidas e raras excepções]. Culturalmente, o país era estreito, apesar de alguns fenómenos de contra-cultura na literatura (a começar no neo-realismo), nas artes plásticas (surrealismo e as novas correntes exploradas pelos “emigrantes”, quase todos bolseiros da Gulbenkian), no pop/rock (imitações “baratas” do que conseguia cá chegar), no jazz (os festivais, o Hot Club) e em algum cinema (as acções dos cineclubes, o “Cinema Novo” da década de 1960). 

Musicalmente, Portugal era o país do fado, do folclore e das marchas populares lisboetas (mais “invenções” do Estado Novo). A metrópole não sabia nada do que se passava nas “províncias ultramarinas”, cujos centros urbanos eram culturalmente mais evoluídos, com mais acesso à novidade, apesar da segregação e racismo.

Por isso, generalizando, os portugueses dos anos 1950, 1960 e 1970 não sabiam nada  (sabiam pouco) do que se passava no exterior; não sabiam que se fazia músicas contra eles, contra este regime de obscurantismo, contra a guerra colonial, a favor dos movimentos de libertação, a favor dos direitos dos negros, a favor da liberdade e dos valores da democracia.

Comecemos então por revelar algumas (as possíveis) dessas músicas.

Franco
Começo pela minha descoberta de 2010: Franco e a sua TPOK Jazz. Originário do antigo Zaire (ex-Congo belga; actual República Democrática do Congo, também conhecida por Congo-Kinshasa), Franco emergiu como guitarrista e compositor, produzindo um sucedâneo das rumbas latino-americanas, muito comum nos anos 1950 e tão ao gosto dos colonos brancos. A música que fazia ganhou autonomia com a incorporação de instrumentos, coros e sons indígenas, abordando temas do quotidiano, transformando-o no mais importante músico antes e depois da independência, que teve em lugar em 1960.  

(Franco, imagem retirada do interessante blog/site samarra/mondomix: http://mondomix.com/blogs/samarra.php])

Mobutu Sese Seko, que tomou o poder em 1965, adoptou Franco e a sua música como compositor oficial [com a gravação do tema “Candidat na biso Mobutu” que pode ser encontrado aqui, e que não abona muito a favor de Franco]. E é deste período que surgem as suas músicas mais politizadas, enaltecendo os movimentos de libertação, que entretanto emergiam nos últimos territórios colonizados, em África: Angola, Guiné e Moçambique.“Mambu ma Miondo”, que quer dizer, em crioulo, “Os donos da terra”, aborda a guerra nesses territórios e critica abertamente o colonialismo de Salazar e Caetano, nomes facilmente perceptíveis na canção.

 A música de Franco e da TPOK Jazz é do melhor que alguma vez se fez em África e foi objecto de duas colectâneas retrospectivas, Francophonic Vol. I (1953-1980) e Francophonic Vol. II (1980-1989), lançadas em 2008 e 2009 pela Sterns Africa, editora inglesa fundada em 1983. [A versão de “Mambu ma Miondo” na colectânea Francophonic Vol. I é altamente recomendável, mas apresento a versão mais rústica, menos polida, da colectânea francesa Editions Populaires, de 1974; obrigado ao AfroCubanLatinJazz.]







Ben
Jorge Ben, ou Jorge Ben Jor, dispensa apresentações em Portugal. É um marco da cultura brasileira e mundial. Responsável por uma pequena revolução musical saída da bossa nova, o samba-rock, Jorge Ben protagonizou sucessos de dimensão mundial, tornando-se numa espécie de embaixador da música brasileira. Em Portugal teve grande sucesso, sobretudo através de versões carnavalescas das suas músicas, mas nunca ofuscou os grandes “monstros” Caetano, Gil e Buarque. Ao contrário destes, nunca foi obrigado ao exílio, mas a sua música, sempre despretensiosa, sofreu uma evolução a partir da década de 1970, enveredando por um misticismo com preocupações sociais e políticas. 

Em 1972 lançou “Tábua de Esmeralda”, onde se nota uma crítica velada ao colonialismo e à guerra que os portugueses travavam em África, com o tema “Zumbi”. [“Tábua de Esmeralda” tem sido repetidamente apontado como um álbum de 1974, mas é o próprio site do artista a colocá-lo em 1972. A sua mãe era etíope ou descendente de etíopes.]








Marley
No que toca a música com preocupações sociais, o autor internacional mais importante das décadas de 1960 e 1970 é, sem dúvida, Bob Marley. Não tenho a certeza, mas creio que a sua música esteve proibida em Portugal, até 1974, altura em que emergiu em força, muito por causa do período revolucionário que viviamos e pela influência dos “retornados” citadinos que a traziam na bagagem. Até 1974, a música de Marley não surge especificamente contra a “guerra colonial” ou de “libertação” travada na África de expressão portuguesa, reporta-se mais aos direitos civis e políticos que a população de origem africana reclamava nos Estados Unidos da América, na Inglaterra e no seu país. 
(Pormenor da capa do álbum "One Love", Bob Marley and the Wailers at Studio One, 1961-1966, Heartbeat CD, 1991. Peter Tosh, Bob Marley e Bunny Wailer) 

Marley, que gravava música desde 1961, tornou-se venerado na Jamaica e mais respeitado que qualquer político, promovendo mesmo a pacificação da ilha caribenha. Muito se escreveu sobre o atentado que sofreu, sobre o “ódio” que a CIA lhe tinha e sobre a sua (alegada) misteriosa morte. A verdade é que qualquer música de Bob Marley é um hino. Ouça-se “Rebel Music” (1970), “400 years” (1970) [dirigida a Portugal teria que ser “500 years”], “Soul Rebel” (1970), “Fussing and fighting” (1971), “Rock the boat” (1971), “Burnin’ and lootin’” (1973), “I shot the sheriff” (1973), “Get up, Stand up” (1973), “Small Axe” (1973), “Concrete jungle” (1973), “Lively up yourself” (1974), “Them belly full (but we hungry)” (1974), “Revolution” (1974), “Crazy baldhead” (1976), “Rat race” (1976) ou “Exodus” (1977). Grande parte destas músicas foram escritas antes do fim da “guerra colonial” portuguesa, questão que Marley certamente acompanhava [e quase todas estas músicas foram gravadas originalmente antes das datas referidas, que são as dos álbuns originais]. 
  Mas o tema escolhido para esta lista surgiu depois, em 1976, chama-se “War” (“Guerra”), e apela especificamente ao entendimento dos povos de Angola e Moçambique que, entretanto, entraram em guerra civil. [“War” tornou-se nas músicas mais contundentes de Marley e das que mais impacto causava ao vivo; foi originalmente publicada no álbum “Rastaman Vibration”, de 1976.]




Shepp e Haden

 (imagem de Charlie Haden assinada por Jos L. Knaepen, retirada de www.jazz.com; imagem de Shepp, não assinada, retirada da mesma morada)

A questão africana, do colonialismo e da libertação dos povos oprimidos, também chegou ao jazz. Entre os autores mais intervenientes contam-se os nortes-americanos Archie Shepp e Charlie Haden, ambos nascidos em 1937. [Na verdade há muitos mais activistas; muitos artistas de jazz afro-americanos, fortemente influenciados pela luta dos direitos civis, prosseguiram correntes musicais e artísticas africanistas, que por vezes só conheciam uma África imaginada, mas originaram movimentos relevantes, como o “Black Power”, que acabaram por culminar no rap e no hip-hop, nas décadas de 1980 e 1990. Enfim, um bocadinho de antropologia cultural amadora…]

Archie Shepp tem uma carreira longa e eclética, iniciada na década de 1950, acompanhando Cecil Taylor, Bill Dixon, Ornette Coleman e John Coltrane, tendo chegado a participar nas sessões de “A love supreme” (1965). A partir de 1967, no álbum “The magic of Ju-ju”, começa a utilizar combos de percussão africana e incorpora sessões de poesia (“spoken word”) nas suas músicas, evidenciando uma forte consciência política, sobretudo pela afirmação dos direitos civis, e preocupação com a situação africana (guerras, apartheid, falhanço da democracia e aumento de ditaduras).

Na década de 1970 torna-se professor universitário, carreira que ainda mantém. Em 1969, viaja pela primeira vez para África, para tocar no Pan African Festival, na Argélia, que acabava de se tornar independente, concentrando todos os activistas mundiais pelos direitos civis, pelos movimentos de libertação africanos, movimentos pacifistas e, também, os oposicionistas ao regime autoritário português. “Kwanza” é um álbum gravado em 1968, lançado no ano seguinte, pela Impulse!, com a participação de um grande naipe de músicos, onde se conta o grande Leon Thomas, que canta “I’m free at last”, no tema “Spoo Pee Doo” (que quer dizer “está tudo bem”, calão de Filadélfia para “everythings’s fine”).


Charlie Haden, contrabaixista, começou, em criança, a acompanhar a família na música hillbilly, como ele próprio conta. Aos 15 anos sofreu de poliomielite, que lhe afectou as cordas vocais, começando então a interessar-se pelo jazz. Depois de estudos musicais mudou-se para Los Angeles; tocou com Ornette Coleman, Paul Bley, entre muitos outros, lançando o seu primeiro álbum integrado no colectivo que fundou, Liberation Music Orchestra, em 1969. 

Trata-se de uma obra com arranjos de Carla Bley baseada na música espanhola, evocando a Guerra Civil de Espanha, momento crucial na história da humanidade, pela ascensão dos regimes autoritários na Europa, que culminam na II Guerra Mundial. O seu objectivo foi alertar para as injustiças sociais e para as guerras que se espalhavam pelo mundo, desde a Guerra do Vietnam às guerras de libertação em África, em Angola, Guiné e Moçambique. Um dos temas, “Song for Che”, conforme diz o título, é uma homenagem ao guerrilheiro revolucionário. Numa digressão pela Europa, em 1971, que passou por vários países do outro lado da “Cortina de Ferro”, José Duarte, em Varsóvia, convenceu-o a vir tocar ao Cascais Jazz (1.ª edição, Novembro de 1971), no mesmo ano em que actuaram (!!!!!) Dizzy Gilliespie, Miles Davis, Dexter Gordon, Thelonious Monk e Art Blakey (!!!!!). Haden, que tocava com Ornette Coleman, não queria vir, já que Portugal era um país fascista. Duarte convenceu-o alegando que Portugal não era fascista, o governo é que era fascista. E veio [Cf. versão em Democracy Now e “Cinco Minutos de Jazz”, contraditórias].

 (José Duarte com Charlie Haden, na Festa do Avante!, 1979, imagem retirada de "Cinco minutos de Jazz"; ver fontes e bibliografia em A Guerra Colonial portuguesa I)
Na Bulgária ou na Roménia, Haden perguntou a jornalistas sobre o que aconteceria se dedicasse o seu “Song for Che” aos movimentos de libertação africanos, na Guiné, Angola e Moçambique. Disseram-lhe que poderia ser preso no momento, ou depois, ou que o poderiam agredir ou encerravam o festival. Em Cascais, acabou por ler, antes do tema, a dedicatória e não aconteceu nada, além de uma enorme manifestação de júbilo na audiência, que não deixava ouvir a música. No dia seguinte foi preso, já no aeroporto, impedido de embarcar de volta a casa, onde era esperado pelas suas tri-gémeas acabadas de nascer, levado para a sede da PIDE/DGS e colocado sobre severo interrogatório. Foi resgatado pelo adido cultural da embaixada norte-americana [Bob Jones], que ali se deslocou a pedido dos organizadores do Festival de Jazz de Cascais, António Villas-Boas e João Braga. Já em casa, acabou por ser interrogado pelo FBI por causa deste episódio. Voltou depois a Portugal, em 1979, actuando na festa do Avante!. 

Ao contrário do que diz João Moreira Santos, no blog "Jazz no País do Improviso", não creio que tenha sido instrumentalizado, como ele próprio conta na entrevista televisiva que deu a Amy Goodman, em Setembro de 2006, e que pode ser lida na íntegra em “Democracy Now”. Vale a pena ler o que escreve Santos e cruzar com o que disse Charlie Haden. [Santos apresenta o relatório da PIDE/DGS sobre a detenção do músico e a declaração que foi obrigado a assinar, apesar de quase não se conseguir ler. Haden diz que não assinou, mas a sua assinatura figura no documento. Para quem pensa que a História é uma ciência exacta, tem aqui um exemplo de que não é e que muito se deve à memória de quem a escreve e de quem a dita. A História é uma ciência sempre em construção e deve ser sempre desafiada.]
Fica “Song for Che”, quinta faixa do projecto “Liberation Music Orchestra”, de 1969.



Zeca
José Afonso dispensa apresentações no mundo em língua portuguesa e até espanhola. Desde que me lembro de me interessar por música, José Afonso esteve sempre presente, mesmo que não venha propriamente de uma família de “esquerda” ou oposicionista. Mas nunca conheci tudo o que gravou, como ainda hoje não conheço. O seu primeiro álbum, por exemplo, “Baladas e Canções” , só o conheci em 2008. 
 
Nunca senti urgência em conhecer tudo o que gravou, porque sei que qualquer dos seus discos, ouvido em qualquer fase da minha vida, é um monumento. Por isso, de vez em quando, regresso à sua música ou vou à sua descoberta; e, em qualquer das situações, foi sempre uma experiência marcante. O último tema de “Baladas e Canções”, gravado em 1967, fala por si: “Ronda dos paisanos”. [O primeiro autor a cantar expressamente a “guerra colonial”, em 1964, foi Luís Cília, no álbum "Portugal-Angola: Chants de Lutte". Infelizmente não conheço nem tenho nada da sua obra anterior a 1974. Mas a sua morada na internet – www.luiscilia.com – é um bom guia.]
Discografia completa de José Afonso, na associação com o seu nome: http://www.aja.pt/discografia.htm
Ronda dos Paisanos
(José Afonso)

Ao cair da madrugada
No quartel da guarda
Senhor general
Mande embora a sentinela
Mande embora e não lhe faça mal

Ao cair do nevoeiro
Senhor brigadeiro
Não seja papão
Mande embora a sentinela
Mande embora a sua posição

Ao cair do céu cinzento
Lá no regimento
Senhor coronel
Mande embora a sentinela
Mande embora e deixe o seu quartel

Ao cair da madrugada
Depois da noitada
Senhor capitão
Mande embora a sentinela
Mande embora o seu guarda-portão

Ao cair do sol nascente
Venha meu tenente
Deixe a prevenção
Mande embora a sentinela
Mande embora e tire o seu galão

Ao cair do frio vento
Primeiro sargento
Junte o pelotão
Mande embora a sentinela
Mande embora e cale o seu canhão

Ao cair do sol doirado
Venha meu soldado
Largue o seu punhal
Vá-se embora sentinela
Vá-se embora que aí fica mal

Vá-se embora sentinela
Vá-se embora que aí fica mal
[“Baladas e canções” revelou-se-me uma obra imprescindível na discografia de José Afonso. É impossível designar “o melhor álbum” que Afonso gravou mas, “Baladas e Canções”, pela sua espantosa modernidade, está seguramente entre “os melhores álbuns”.]

Zé Mário e Godinho
(Pormenor de uma das fotos da contra-capa do álbum "Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades", 1971, de José Mário Branco)
José Mário Branco e Sérgio Godinho também dispensam apresentações. Começaram a gravar álbuns no estrangeiro, em França. Ambos naturais do Porto saíram do país, em parte, para fugir à “guerra colonial”. Era um terror para os jovens de 17 ou 18 anos, que terminavam o ensino liceal ou técnico, saber que iriam à inspecção militar, daí para a recruta e depois para o “ultramar” [em comissões de quatro a seis anos]. As famílias de classe média e alta mandavam os filhos estudar para o estrangeiro, para fugir à guerra. As famílias pobres não podiam fazer isso. Mas houve outras famílias, mais politizadas, que incentivaram os seus filhos ao exílio, à emigração clandestina, sabendo que o país pouco lhes reservava no futuro. A Guerra Colonial ou de Libertação foi também uma guerra em que se expuseram as diferenças sociais e políticas reproduzidas em Portugal, que o regime tudo fazia para ignorar e esconder.


José Mário Branco lançou, a partir de França, o seu primeiro álbum “Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades”, em 1971. O tema “Canção do Fogo e da Guerra”, escrito e interpretado por Branco, com letra de Sérgio Godinho, recorre à simplicidade do cancioneiro medieval ibérico, a que se junta uma contundente crítica aos “embaixadores da guerra”. Não tenho a certeza, nem fontes, mas o “Mudam-se os tempos…” foi certamente proibido em Portugal. No entanto, o artigo da revista “Mundo da Canção”, que começou a ser publicada em 1969, no Porto, parece contrariar esta ideia [Agradeço a reprodução destas imagens ao saudoso RatoRecords. Clique na imagem para aumentar.]


O primeiro álbum de Godinho, “Os sobreviventes”, de 1972, prossegue o tema da guerra em “Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos”. A cantiga conta a angústia de uma mãe que vê os seus dois filhos saírem de casa, um, para a guerra, o outro, para os meandros do regime autoritário, talvez para escapar à guerra.

Mas o tema que apresento é do álbum “À queima roupa”, de 1974, e chama-se “Independência”. Apela à libertação imediata e incondicional das ex-colónias, o que lhe trouxe muitos “amargos de boca” entre os sectores reaccionários e saudosistas e entre os “retornados”.









Tim
Termino com o brasileiro Tim Maia, com o tema “Guiné-Bissau, Moçambique e Angola Racional”, do álbum “Racional Vol. II”, de 1975. Tim Maia é dos cantores mais espantosos que alguma vez ouvi. Lembro-me dele no princípio dos anos 1990 quando teve um estrondoso êxito em Portugal com o tema “Um dia de domingo”, uma música popularizada na voz de Gal Costa, no álbum “Bem Bom” (1982), precisamente um dueto entre os dois e que também foi um enorme êxito em Portugal. Apesar daquele vozeirão, nunca liguei muito ao Tim Maia, porque nunca apreciei aquelas músicas demasiado melodramáticas e lamechas, “muito brega”. [A comparação com Stevie Wonder é inevitável: aquele insuportável “I just called to say I love you” não retira nada aos incríveis álbuns do final da década de 1960 e da década seguinte, onde desempenhou também um papel importante no apoio aos movimentos de libertação em África!] Mas, entre 2006 e 2007, (re)descobri o cantor e rendi-me totalmente.

Tim Maia, carioca, começou muito cedo na música, aprendendo a tocar bateria. Chegou a ensinar música a autores como Erasmo Carlos e Roberto Carlos, ainda na década de 1950. Foi para os Estados Unidos em 1959, onde começou a cantar, tomando contacto com as “novas” sonoridades Soul e Funk. Em 1963 foi detido por posse de drogas, preso durante seis meses e deportado. Regressado ao Brasil, ninguém lhe dava trabalho e chegou a dormir na rua. Seguiu para São Paulo, lançou um compacto (“single”, em português de Portugal), em 1968, obtendo um êxito considerável, o que lhe permitiu gravar o primeiro álbum, em 1970, “Tim Maia”, participando também nas gravações do álbum “Em pleno Verão”, de Elis Regina, no mesmo ano [com quem fez o dueto “These are the songs”]. Apesar de muitos cantores procurarem as suas músicas, não era um autor muito querido pela indústria fonográfica: conflituoso, incapaz de respeitar compromissos, confesso consumidor de cocaína e marijuana.
A meio da década de 1970 mergulha de cabeça numa seita mística, Cultura Racional, libertando-se de todos os vícios; funda a sua primeira editora e lança dois marcos incontornáveis de toda a música Soul e Funk, Tim Maia Racional, Vol. 1 e 2. As letras dos álbuns, a parte mais fraca das obras, enaltecem a filosofia e, no caso da música escolhida, dão as boas vindas aos novos países Guiné Bissau, Moçambique e Angola, que entrariam na “fase racional”. Os dois volumes em vinil de “Tim Maia Racional” são dos mais procurados pelos coleccionadores já que, poucos anos depois de lançados, Maia descobre que afinal fora aliciado para a seita racional por causa da sua fortuna e imagem, tendo mesmo sido despojado dos seus bens; acabou por mandar retirar os álbuns do mercado e destruí-los. Digamos que Tim Maia não seria propriamente um activista social e político preocupado com os direitos civis ou de autodeterminação dos povos (o que apenas se verificou na fase racional e em alguns álbuns posteriores, ainda na década de 1970), mas a valiosa mensagem de esperança e boa disposição de “Guiné-Bissau, Moçambique e Angola Racional”, do álbum “Racional Vol. II”, de 1975, merece figurar aqui [e sim, eu gosto muito de Soul Funk].

Mega-postal – A “Guerra Colonial” portuguesa I – Mitologias

Esclarecimento prévio: este texto não pretendeu ser um artigo jornalístico ou um ensaio historiográfico; também não pretendeu ser um desabafo ou uma homenagem, apesar de conter uma dedicatória. Foi inicialmente descrito como “uma visão pessoal, devidamente fundamentada, de um período histórico recente que teve repercussões no autor e na sociedade portuguesa, objecto de discussão durante anos no seio familiar, e que retira conclusões da percepção social e política de um episódio traumático da nossa existência enquanto nação”. Mas agora, depois de ter sido “re-reescrito” passou a ser qualquer coisa que reúne um pouco de tudo o que se negou atrás, com ênfase no “devidamente fundamentado”, e que resulta, sobretudo, de uma necessidade pessoal de escrever sobre a “Guerra” e sobre o “Colonialismo”. Apesar de continuarmos no domínio dos “mega-postais”, termo que, apesar de não ter sido inventado aqui, vai sendo habitual no Meios de Produção, o tema da Guerra Colonial vai dividido em Mitologias, onde se pretende abordar os mitos que perduram na sociedade portuguesa sobre a guerra, colonialismo e descolonização, e Música, onde se revela alguma da música, nacional e estrangeira, que nas décadas de 1960 e 1970 se fazia contra o colonialismo português e contra a guerra em África.

Sem grande pompa e circunstância os portugueses assinalaram, no dia 4 de Fevereiro de 2011, os 50 anos do início da Guerra Colonial. Também a poderemos designar por Guerra do Ultramar, numa visão mais reaccionária da história, ou Guerra de Libertação, do ponto de vista dos povos africanos das ex-colónias portuguesas, Angola (1961), Guiné (1961/1963) e Moçambique (1964).

Imagem da capa de álbum de fotografias vendido na "Metrópole" às famílias dos soldados enviados para o "Ultramar". Nela se vêem soldados portugueses, entre eles um soldado negro, a preparar o ataque a uma aldeia "inimiga" com ar ameaçador, apesar de não se detectar nenhum inimigo. No canto à esquerda, a dourado, pode ler-se "Pela Pátria, Lutar...". Colecção particular.
A guerra teve início quando um grupo de revoltosos atacou, com paus, pedras, catanas e armas de fogo improvisadas, os estabelecimentos prisionais de Luanda, matando alguns guardas, sofrendo diversas baixas. Nesta altura estavam já criados os movimentos de libertação das colónias, que tentavam a autonomia pelo diálogo, negado e ignorado pelo ditador português Oliveira Salazar, de 72 anos. No passado, no final da década de 1950, revoltas na Guiné e em Angola, violentamente reprimidas, foram o prenúncio dos levantamentos. De resto, Portugal estava cada vez mais isolado desde a II Guerra Mundial, com a difusão das democracias na Europa, que rejeitavam o colonialismo português, e a divisão do mundo em blocos, onde os Estados Unidos eram um aliado imposto, crítico, mas condescendente.


Fotografia não assinada, retirada de "Os anos da Guerra", Vol. 1, de João de Melo [org.], 1988, Lisboa: Círculo de Leitores. Nenhuma das muitas imagens dos dois volumes está assinada, nem se refere o local ou o contexto em que foram tiradas, mas o organizador refere que os autores são os militares portugueses

Portugal, um dos últimos regimes fascistas na Europa, procurava a todo o custo ignorar, desde os anos 1950, os movimentos de descolonização na Ásia e na África e a entrada dos novos países libertados na Assembleia das Nações Unidas, genericamente hostis. A resposta portuguesa ao clima internacional, protagonizada por um ditador católico, conservador, anti-democrático e anti-comunista [acrescentaria racista] – que nunca tinha visitado as colónias e mal conhecia o país (apenas o que lhe contavam e o que queria ouvir) –, resumia-se a mudar o nome de colónias para províncias (1951), apelando, através de intensa propaganda desde os anos 1930, à ideia de um “Portugal mítico”, que ia do Minho a Timor e levava a “civilização” aos povos indígenas (Oliveira, 1996).

Imagem de propaganda portuguesa, para mostrar no estrangeiro, sobre a suposta integração racial em Moçambique, incluída na publicação de Joaquim Oliveira Boléo [Moçambique. Pequena Monografia, Agência-Geral do Ultramar, Lisboa, 1961] e retirada do blog companhiademoçambique.blogspot.com – notável sitio sobre o colonialismo português
Mas a realidade era bem diferente. Os povos ocupados eram usados sucessivamente como mão-de-obra forçada ou extremamente barata, permitindo altos lucros às empresas nacionais e internacionais que operavam nas colónias; em termos macro-económicos, as colónias forneciam matérias-primas à “Metrópole”, importando depois os produtos manufacturados, escoados a taxas reduzidas, garantindo mais valias às empresas nacionais que ali tinham um mercado privilegiado; a colónia da Guiné, por exemplo, que acolhia uma escassa população branca, era uma espécie de entreposto para a Companhia União Fabril (CUF), que tomava participação em todos os negócios; as grandes riquezas naturais e os transportes de Angola e Moçambique estavam concessionadas a sociedades internacionais (Ferreira, 1977).

Quando se dá o ataque dos terroristas da UPA – União dos Povos de Angola (mais tarde FNLA) às fazendas do norte de Angola, a 15 e 16 de Março de 1961, Oliveira Salazar reúne as forças políticas da “Metrópole”, um conjunto de velhos conservadores detentores do poder político, social e económico, e anuncia o envio das Forças Armadas para Angola – “rapidamente e em força” –, que se encontravam sub-representadas nos territórios coloniais.



"Angola é nossa" – Marcha militar de índole colonialista e racista

O discurso cínico e o júbilo das elites, na Assembleia Nacional, em 30 de Junho de 1961, transmitidos na rádio e televisão, é um dos momentos mais patéticos e chocantes do regime autoritário português: um conjunto de velhos retrógrados jubilantes, ultra-conservadores e seus favoritos, decidindo de uma penada o futuro das gerações mais jovens do país.


Episódio 4 de “A Guerra, de Joaquim Furtado, “Nambuangongo”; Presidente do Conselho discursa na Assembleia Nacional a 16 de Junho de 1961 (a partir do minuto 4)
A Guerra Colonial durou 13 anos. Portugal chegou a invadir países vizinhos e a promover o assassinato de líderes estrangeiros, com o objectivo de impedir o apoio aos terroristas; usou meios da NATO/OTAN estacionados no território; sofreu consideráveis baixas (6.665); mobilizou nesses anos mais de 1,1 milhões de efectivos militares (Oliveira, 1996). 


Fotografia não assinada de embarque [ou o regresso] de tropas portuguesas das colónias retirada de "Os anos da Guerra", Vol. 1, de João de Melo [org.], 1988
Foi um conflito de baixa intensidade, impossível de ganhar, que causou numerosas baixas entre as populações (sobretudo indígenas) e entre beligerantes. A Guerra Colonial chega perto do fim quando, em 25 de Abril de 1974, surge um golpe militar em Lisboa, originando uma revolução popular no país colonizador. Progressivamente terminam os ataques entre terroristas e forças coloniais, depois de um breve período em que as forças libertadoras procuram ganhar posições. O novo poder em Portugal (repartido entre MFA, governo e Presidente da República) anunciava o prosseguimento de “todas as vias que possam conduzir à paz efectiva e duradoira no Ultramar”, reconhecendo que a solução para o conflito era “essencialmente política e não militar”, aceitando a autodeterminação dos povos ultramarinos (Oliveira, 1996).

Portugal instaurou uma democracia partidária e iniciou conversações para integrar a Comunidade Económica Europeia; promoveu a descolonização e foi recebendo cerca de 700 mil pessoas oriundas das ex-colónias, identificados algo pejorativamente como “Retornados”, que se foram integrando na nova sociedade democrática.

Identifiquemos então aos “mitos” que a Guerra Colonial produziu no imaginário português. Há alguma bibliografia sobre o tema, mas ainda escassa; recorro uma vez mais ao historiador César Oliveira e à sua obra “Portugal, Dos Quatro Cantos do Mundo à Europa, A Descolonização (1974-1976), Ensaios e Documentos” (15-17) [ver fontes e bibliografia]. (Aquilo que identifico como “mitos”, são identificados por Oliveira como “conceitos”; a explicação que se lhes segue é da minha autoria.)

1.º Mito – “A presença colonial portuguesa era diferente do colonialismo praticado por outras potências coloniais. Foi sempre pacífica e nunca se envolveu em práticas racistas. Portugal não «tinha» colónias, mas províncias ultramarinas.”

Obviamente, isto é falso. Nós fomos tão racistas como as restantes potências coloniais. Uma das principais “riquezas” das colónias portuguesas, territórios ainda pouco definidos, nos séculos XVIII e XIX, foi o comércio de escravos para as Américas [em 1850, Cuba e sul dos Estados Unidos eram destino preferencial, em gradual diminuição, mas envolvendo capitais cada vez mais elevados (Cruz, 2005, 43)]. O grosso da colonização portuguesa em África surge depois da independência do Brasil; a “pacificação” do interior de Angola durou até ao início da década de 1950, com a progressiva ocupação branca do interior. Os alegados direitos de cidadania dos indígenas, concedidos pelos portugueses, surgiram apenas depois da II Guerra Mundial e durante a Guerra Colonial, como uma resposta às pressões internacionais. [Recomendo vivamente o 5.º episódio de “A Guerra”, de Joaquim Furtado, “Indígenas e Assimilados” que nos mostra, literalmente, como subalternizávamos os autóctones das “nossas províncias”.

Gravura de Artur Pastor, de 1895, representando Gungunhana com a sua coroa real, retirada da página na wikipedia sobre o imperador moçambicano (ver Fontes e Bibliografia, em baixo)


Paralelamente, para justificar a presença colonial, certos sectores da sociedade afirmam que até à chegada dos portugueses não havia qualquer civilização nos territórios de África. Obviamente isto também é falso. A Guiné fazia parte do Império do Mali desde o século XIV (Lopes, 1982); a captura e humilhante exibição de Gungunhana pela metrópole, nos séculos XIX e XX, revela a existência do Império de Gaza, no território de Moçambique. Quando atrás se falou em "pacificação" dos povos do interior de Angola, e conforme diversos autores, referimo-nos aos povos que reagiram à ocupação das suas terras pelos colonos brancos, obrigando-os a deslocações forçadas.

2.º Mito – “A guerra colonial estava ganha em Angola e estabilizada em Moçambique; curiosamente o caso da Guiné nunca é referido, quiçá pela pouca expressão da presença de colonos portugueses.”

Uma guerra de guerrilha nunca está ganha porque o inimigo não desaparece (veja-se o caso actual do Afeganistão). Está lá, mas não se sabe onde está, nem quando poderá atacar ou o que poderá atacar. E a guerra em três frentes em África foi sempre uma guerra de guerrilha. Há um episódio notável de “A Guerra”, de Joaquim Furtado, referente à tentativa de tomada do arquipélago de Como, na Guiné. O episódio termina com o documentarista a perguntar ao lado português, entre eles Alpoim Calvão e Fernando Cavaleiro, quem tinha ganho aquela batalha: sem hesitação, mas com algumas reticências, os militares portugueses responderam que foram as forças armadas nacionais. Os terroristas guineenses, entre eles “Nino” Vieira, sem hesitação e com sorriso franco, disseram que a vitória pertenceu aos locais. E quem ganhou a batalha? O documentário não revela, pretende ser isento, mas afirma que a Operação Tridente deverá ter sido a mais cara de toda a guerra e que a ilha de Como era praticamente desabitada. Para mim a resposta é clara: foram os guineenses quem ganhou a batalha de Como, que revelou ser uma operação pouco racional. [Ver Episódio 9, 1.ª série, em “A Guerra”, de Joaquim Furtado, "Frente em Moçambique", Operação Tridente, Arquipélago de Como.]

3.º Mito – “O «poder revolucionário» (militares do MFA e I Governo Provisório) abandonaram os portugueses e entregaram a trouxe-mouxe as colónias aos movimentos de libertação.”

Com o golpe militar do Movimento das Forças Armadas, em 25 de Abril de 1974, e com o assumir da sua posição democrática, não havia qualquer razão para continuar a guerra em África, uma pretensão, aliás reclamada pelos militares no terreno. Durante os 48 anos de autoritarismo sucederam-se as tentativas de derrube do regime, quase todas com o objectivo de instaurar uma democracia, sobretudo após o fim da II Guerra Mundial, quando triunfam e proliferam as democracias pela Europa ocidental. E durante todo o período em que deteve o poder, o ditador Salazar tudo fez para o manter, nunca pensando ou admitindo uma sucessão; um dado revelador e alarmante já que significava que não haveria futuro para Portugal. Salazar certamente pensou que viveria eternamente. A chegada de Marcelo Caetano, que começou por afrouxar a repressão do regime, logo foi dando sinais que não haveria lugar a mudanças profundas na essência do regime político, que se situava no autoritarismo. Conforme ele próprio escreve no seu livro “branqueador” ou “justificador”, “Depoimento” (Distribuidora Record, Brasil, 1974), aceitando o cargo de presidente do Conselho, teria que abandonar uma sua ideia antiga de se avançar para um império federalista, ou seja, estaria refém dos militares, tendo que manter uma guerra em três frentes, sem objectivo e sem fim à vista. Convém lembrar que o PAIGC havia declarado unilateralmente a independência da Guiné em 1973, logo reconhecida por mais de 80 Estados, representados na ONU. O general Spínola, enquanto Presidente da República, tentou acções subterrâneas, que terão culminado na queda do I governo provisório, para implementar uma solução federalista, impossível de alcançar já que não observava a existência dos movimentos de libertação que não aceitavam menos que a independência, pela qual lutavam há cerca de uma década. Apesar das acções do colonos brancos em Angola e Moçambique, que procuraram avançar violentamente para soluções do género Rodésia ou África do Sul, em Portugal o povo gritava nas ruas “fim à guerra colonial (ou do Ultramar)!”. No momento da revolução, o que fazer? Instaurar uma democracia em Portugal e negá-la aos povos africanos que por ela lutavam?

4.º Mito – “O processo de descolonização não foi exemplar (como se pudessem verificar-se quaisquer actos exemplares e incontroversos na sequência de um regime derrubado pela força das armas que havia durado 48 anos!), nem foi a descolonização possível, porque outra poderia ser concretizada.”

O prolongamento da guerra por 13 anos (1961-1974), em que os colonos lutaram activamente contra os indígenas, sobretudo em Angola e Moçambique, possibilitaria que essas famílias permanecessem nos territórios agora libertados? Acho possível, como sucedeu com muitos indivíduos e famílias, mas difícil. Até porque, como vimos atrás, muitos colonos brancos tentaram soluções autónomas que passavam pela manutenção do colonialismo, o que potenciou, como se sabe, o aumento da conflitualidade. 
Página 5 do volume "Resistência Popular Generalizada", editado pelo Ministério da Informação da República Popular de Angola, sem data. Trata-se, essencialmente, de uma publicação de propaganda ao MPLA que tomou o poder em Angola. A legenda da foto [que não as palavras que surgem na imagem, e que se nota ser uma encenação] diz o seguinte: "Para a construção de uma Angola independente e Próspera é necessário destruir todos os vestígios do inimigo colonial e imperialista. Símbolos coloniais retirados das cidades." Tratam-se de diversas estátuas dos designados "heróis" dos Descobrimentos que se encontravam espalhadas pela cidade de Luanda revelando as idiossincrasias do regime autoritário português

O que é o colonialismo? É a ocupação de um território por um grupo estranho, sendo que essa ocupação implica a instauração de regimes sociais, políticos e económicos alheias aos aborígenes, portanto, impostos, que se baseia na exploração das riquezas alheias. Conheci muitos “retornados” que amaldiçoavam os “pretos” que lhes ficaram com as enormes quintas e fazendas que possuíam no interior de Angola. Esses colonos portugueses, que não eram citadinos, entendiam que tudo o que construíram lhes pertencia e recusavam a ideia de terem ocupado um lugar que pertenceu a um povo originário. Diziam também que os “pretos” eram menos inteligentes que os brancos. Não havia outra descolonização possível, a única possível foi a que sucedeu, porque os portugueses foram colonizadores durante 500 anos; porque o regime autoritário do século XX foi racista, explorador, não permitindo a integração (foi escassíssima) dos autóctones na administração pública, na economia e na sociedade; porque todos os vizinhos das colónias portuguesas já eram independentes e apoiavam todos os esforços dos movimentos independentistas. 

Quanto à exemplaridade da descolonização, tratou-se de uma movimento sem paralelo na sociedade portuguesa contemporânea, pelos números de imigrantes envolvidos, que resultou bem, por vezes com conflitos, mas com saldo positivo; foram integrados e, praticamente, não há nenhum estigma pela sua origem, descontando uma série de traumas pessoais que nunca serão recuperados.

[Há, contudo, uma geração de filhos de “retornados” que por serem “pretos”, “monhés”, mestiços ou outros, não são reconhecidos como cidadãos, revelando uma atitude preocupante, racista, do Estado português que deveria ser acautelada pelo poder político o mais depressa possível; e se o poder político não resolve esta situação dos “não-cidadãos”, que seja a União Europeia a fazê-lo. Leia-se este texto de Luis Aguiar-Conraria, professor na Universidade do Minho. Lembro-me de ver uma reportagem sobre este tema, dos "sem documentos", na televisão muito recentemente, em 2010, chocante, pela injustiça prosseguida pelo Estado português, mas não encontrei rasto dela na internet, e também não sei indicar qual o canal que a emitiu.]



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Dedico este mega-postal ao meu pai, R.A. (1943-2011), ex-combatente na Guiné, CArt 1688, 1965-1969

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Actualização Bibliografia 5/Ago/2011
Fontes e Bibliografia (referentes também ao Mega-postal – Guerra Colonial portuguesa II – Música) [em actualização]:

AAVV (1996) Cadernos do Público, Vol. 1 a 8, Lisboa: Instituto de Ciências Sociais.

BARRADAS, Ana (1991) Ministros da Noite – Livro Negro da Expansão Portuguesa, Lisboa: Antígona. Act.05/Ago/2011 [Embalados pelo dinheiro que chegava da Europa, os portugueses dos anos 1990, esqueceram-se (ou tentaram branquear) o seu passado colonialista. A compilação de textos de Ana Barradas cobre mais de 500 anos de expansão (colonial) portuguesa apresentado testemunhos do pensamento dominante de todas as épocas. "Ministros da Noite" é uma obra importante, mas tem um valor relativo na historiografia portuguesa. É acima de tudo um "livro-denúncia", que se lê com algum asco. Há muito que o queria incluir nesta lista, mas não o encontrava.]

CRUZ, Elizabeth Ceita Vera (2005) O estatuto do Indigenato – Angola, A legalização da discriminação na colonização portuguesa, Lisboa: Novo Imbondeiro. [Altamente recomendado Apenas recomendado; não sendo pioneiro, este livro revela uma das facetas do colonialismo português e diversas questões sobre a nossa presença em África completamente desconhecidas, talvez por conveniência ou por força de décadas de propaganda. Bibliografia e fontes relevantes. [Act. 05/Ago/2011] A obra de Elizabeth Cruz, a partir da sua tese de mestrado, perde-se um pouco nas explicações e justificações legais. Uma das características do regime autoritário português reside na construção de um quadro legal como forma de legitimar o próprio poder e a sua práxis; por isso não é muito relevante decompor a legislação para se perceber que a realidade é muito diferente do que os legisladores propõem. Convém não esquecer que Salazar, que orientava toda a política e legislação nacionais, é um homem que raramente sai do gabinete, praticamente não viaja, nunca foi às colónias, e não gosta de multidões, embora precise delas. Aspecto que compromete a obra, algo irritante, é a falta de distanciamento da autora face à legislação e políticas de segregação, exploração e racismo. Mas percebo, até pelo que escrevo, que é difícil a isenção; mas numa obra científica é obrigatória.]

DUARTE, José, (2006) Cinco minutos de Jazz, 40 anos, 4 CD e livro, produto multimédia.

FERREIRA, Eduardo de Sousa (1977) África Austral – O Passado e o Futuro, Lisboa: Seara Nova. [Recomendadíssimo. Muitos não gostarão do estilo/corrente materialismo histórico, que estará desactualizado (que pelo que temos vivido se verifica não ser verdade), outros acharão que se trata de uma obra datada, que já não serve como bibliografia... Eu não acho nada disso. O livro de Eduardo Sousa Ferreira reúne textos e comunicações escritas a partir de 1970, quando se encontrava emigrado na RFA, a fazer um doutoramento, chegando a escrever sob encomenda da ONU. Parece-me a mim que é um dos pioneiros na denúncia do colonialismo português, na exploração dos povos africanos pelas grandes multinacionais alemãs, inglesas e americanas, em parte responsáveis também pelo esforço da guerra colonial ou de libertação e pelo seu desvio em guerras civis. Com dados credíveis e oficiais explica por que e como Portugal teve uma actuação colonialista e racista nos territórios africanos. Este volume é uma edição aumentada e revista de "Aspectos do Colonialismo Português – Análise de economia e política sobre as colónias portuguesas, África do Sul e Namíbia", editado pela Seara Nova, em 1974.]

FURTADO, Joaquim (2009-2010) A Guerra, 1.ª e 2.ª Série, Lisboa: RTP; produto multimédia. [Os 18 episódios, da 1.ª e da 2.ª série, de “A Guerra”, que Joaquim Furtado realizou para a RTP, podem ser encontrados aqui, no youtube. Acredito que seja o próprio autor a disponibilizar os episódios on-line, mas não tenho a certeza.]

LOPES, Carlos (1982) Etnia, Estado e Relações de Poder na Guiné-Bissau, Lisboa: Edições 70


MELO, João (Org.) (1988) Os anos da Guerra, Lisboa: Círculo de Leitores, 2 Vol.

OLIVEIRA, César (1996) Portugal – Dos quatro cantos do mundo à Europa, A descolonização (1974-76), Ensaio e documentos, Lisboa: Edições Cosmos.  [O historiador César Oliveira, desaparecido prematuramente, apresenta aqui um estudo de grande qualidade e até inédito na altura do seu lançamento; chegou a ser autarca pelo Partido Socialista, sendo responsável por obras de grande qualidade na historiografia portuguesa.]

PRAÇA, Afonso; ANTUNES, Albertino; AMORIM, António; BORGA, Cesário; CASCAIS, Fernando (Coords.) (1974) 25 de Abril, Lisboa: Casa Viva.

REIS, António (Coord.) (1994) Portugal 20 anos de Democracia, Lisboa: Circulo de Leitores. [De referencia o capítulo "A Descolonização", de Pedro Pezarat Correia; este volume, que apresenta capítulos de grande importância na historiografia portuguesa é, no entanto, desigual e revelou-se  um veículo de promoção de "especialistas" ligados ao Partido Socialista, entre eles, pasme-se!, Armando Vara, que assina o capítulo "Habitação, Equipamentos e Infra-Estruturas".]


TELO, António José (1994) Economia e Império no Portugal Contemporâneo, Lisboa: Edições Cosmos. Act. 05/Ago/2011. [Uma obra imprescindível para se perceber a importância do Império Colonial português nos séculos XIX e XX. Telo não aborda a questão colonial e os direitos dos indígenas, a visão social; aborda a questão económica e militar, o que permite perceber, noutra vertente, o colonialismo português, comprovando que a ideia ou os "mitos  civilizadores" impostos a muitas gerações de portugueses são, precisamente, mitos ou mentiras ou construções ideológicas. Seria importante que os militares que combateram na Guerra Colonial ou do Ultramar, mas também todas as gerações de portugueses até aos nossos filhos, percebessem isso mesmo: o império colonial possibilitou a Portugal uma economia estável, proteccionista, relativamente fechada, permitindo altos lucros aos empresários e famílias protegidas do regime (ou empresas externas, ocidentais), à custa da exploração dos recursos e mão-de-obra das colónias, sem que isso tenha contribuído para a integração e evolução dos povos africanos, que continuaram a ser explorados e reprimidos. Para os que se interessam pela História Militar, o livro de António Telo apresenta um interessante e original capítulo, "Tecnologia e Terceiro Império", onde aborda a capacidade militar nacional, no mesmo período (XIX-XX) – Portugal encontrava-se ao nível das grandes potências europeias, a quem comprava armas, acompanhando a evolução tecnológica, o que lhe permitiu fazer uma ocupação militar dos territórios do interior das colónias com poucos efectivos, com custos relativamente baixos, mas com enorme sucesso face a exércitos primitivos muito numerosos. "Economia e "Império" é altamente recomendado.]

moradas sobre a Guiné e a guerra:

blogueforanadaevaotres.blogspot.com (Luís Graça & Camaradas da Guiné)

Outros: 
 
A lista das resoluções das Organização das Nações Unidas visando Portugal, entre 1955 e 1975, durante o colonialismo e os anos da guerra colonial ou de libertação, encontra-se em www.guerracolonial.org e estão disponíveis no arquivo on-line da ONU. Foram cerca de 80 as resoluções que incluíam Portugal, por parte da Assembleia Geral, e 27, pelo Conselho de Segurança. [Estão disponíveis em Inglês, Francês, Espanhol e Árabe; por vezes é difícil aceder aos arquivos.]

Sobre a censura, incluindo a censura musical, em Portugal: http://franciscotrindade.blogspot.com/2006/06/interdito-todas-as-idades.html [Aparentemente reprodução de um texto do jornal «Público», de 2006, com algumas referências sobre músicas censuradas, temática pouco ou nada abordada pela historiografia portuguesa.]

De apreciável qualidade o artigo sobre o imperador moçambicano Gungunhana na wikipedia:  http://pt.wikipedia.org/wiki/Ngungunhane


A página na wikipedia sobre a guerra colonial portuguesa também é de qualidade embora não problematize uma série de questões: 
 http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Colonial_Portuguesa
[Act. 21/Out./ 2012] A página na wikipedia sobre a guerra colonial é pouco recomendável. Quando escrevi este mega-postal, no final de 2010, início de 2011, verifiquei várias vezes a página descrita, e observei uma narrativa dirigida, um discurso que procurava alguma isenção e preocupação em informar, mas apagava a problemática do tema e era escrita com um visão ocidental/portuguesa, evidenciando uma posição de supremacia sobre a realidade africana, integrando ainda uma "visão NATO".  No entanto, as constantes alterações – sem citar fontes; relevando discursos contraditórios; e a ausência de elementos de verificação – tornam a página num pastiche nada recomendável para nos mantermos informados sobre um episódio preponderante da história contemporânea de Portugal. É verdade também que o Meios de Produção não tem acesso directo à página da Guerra Colonial Portuguesa, foi banido (aspecto que verifiquei agora), provavelmente por mostrar – de forma verificável, com fontes sérias e credíveis – que o que se escreve na página da Wikipedia é contraditório, não cita fontes, e obedece a uma narrativa desculpabilizadora, branqueadora, auto-justificativa, que nos afasta daquilo que devemos conhecer sobre a defesa do colonialismo português, no século XX, dentro da lógica do autoritarismo que caracterizava o nosso país. A página da Wikipedia não merece, portanto, demasiada atenção para quem quiser saber mais sobre a Guerra Colonial Portuguesa. Atente-se, por exemplo, ao aviso que ali vigora desde 2009 – "Este artigo ou secção contém uma lista de fontes ou uma única fonte no fim do texto, mas esta(s) não são citadas no corpo do artigo, o que compromete a confiabilidade das informações." –, ou a própria discussão entre os autores do artigo, no mesmo sítio.